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Poesia, farda com câmera e saúde mental

Por Antônio Carlos Côrtes, advogado, escritor e psicanalista

Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade. (Clarice Lispector)

Saboreava uma rubiácea no café do subsolo da charmosa Galeria Chaves, a mais linda do Brasil. Ao som, o excelente pianista Wyl. Até arrisquei ferir algumas teclas de marfim em canção que falava em Deus.

Estava reservando mesa para o Grande Sarau Literário que, afinal, não podemos nunca perder a ternura. Sempre é tempo de poesia.

Para minha surpresa, vi passar dois elegantes soldados da briosa Brigada Militar, cujos uniformes, elegantes, continham também câmeras. Lembrei, por justiça, da iniciativa da Frente Negra Gaúcha, que lutou pela implantação daquela ferramenta, no Estado do Rio Grande do Sul, em todo efetivo que atuava na rua. Vitória da FNG.

Recordei de evento na Assembleia Legislativa do Estado, em que o tema do uso de câmeras em uniformes foi debatido exaustivamente. Reclamos davam conta de que não bastava gravar imagens, mas também áudios, bem como serem preservados, por, no mínimo, dois anos.

Soube agora que 20 Estados da Federação, mais o Distrito Federal, pediram adesão ao Projeto Nacional de Câmeras corporais do Ministério da Justiça para comprar 52.558 equipamentos em questão.

Boa medida, eis que são fundamentais nas ações ostensivas, especialmente no que concerne a prisões em flagrante.

Não precisamos de muita pesquisa para saber que o uso do equipamento reduz o número de óbitos envolvendo policiais militares.

A diminuição da violência é necessária. Indícios não podem ser considerados apenas pistas. São verdade real e substancial.

Mas, em defesa dos policiais, é necessário que o Estado brasileiro desenvolva esforços proativos quanto à saúde mental da tropa.

A história registra que policiais morrem, muito mais, por descaso do Estado com a saúde mental de seus representantes do que em confronto nas ruas.

Exames psicológicos com regularidade urgem. Não basta pressionar em busca de metas, desempenho que garanta estatísticas frias para exibir na mídia. O que sugerimos é garantia da preservação da vida do policial e do cidadão.