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Precisamos cultivar os nossos talentos

Por Patrícia Kniest, diretora Financeira da Fundacred

A desigualdade no acesso ao ensino superior persiste como um dos principais desafios educacionais no Brasil. O mais recente censo que mapeia o cenário indica que apenas um em cada quatro jovens de 18 a 24 anos entrou para uma universidade. Ou seja, 75% das pessoas nessa faixa etária não ultrapassaram a educação básica e mais da metade sequer concluiu o ensino médio. Estamos desperdiçando talentos.

O panorama tampouco é reconfortante quando vemos a parcela contemplada pela chance de ingressar numa graduação. Neste caso, o desafio é outro: a permanência e conclusão do curso. Passa da metade o percentual de estudantes que abandonam a universidade antes do término. Novamente, um desperdício.

A conjuntura demonstrada pelo Mapa da Educação Superior 2024 é resultado de uma série de fatores, de diferentes ordens. Mas um deles é o principal – e o que impacta, especialmente, a rede privada: a falta de recursos financeiros.

Estudo divulgado neste ano pela Deloitte ouviu jovens da Geração Z e millennials sobre os motivos pelos quais não pretendiam ingressar no ensino superior. A resposta mais recorrente? Preocupação com as finanças pessoais. Esse impeditivo se reflete na taxa de matrículas que, embora tenha voltado a crescer nos últimos anos, apresentou queda histórica por sete anos consecutivos.

A combinação do cenário macroeconômico com o baixo número de estudantes universitários – se comparado ao público em potencial – tem exigido das lideranças do setor educacional uma gestão financeira estratégica e adaptável, visando à sustentabilidade das universidades. Lembremos que agosto foi o primeiro mês com deflação no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no ano de 2024. Os juros elevados também pressionam os custos operacionais das instituições, que precisam arcar com salários, materiais e serviços. Como resolver essa equação?

Otimizar custos e renegociar contratos são movimentos importantes, mas há um ponto fundamental que deve estar no radar: a centralidade no cliente. Precisamos avaliar o impacto desse contexto nos preços das mensalidades e na capacidade de pagamento dos estudantes. Entender as limitações do público-alvo torna mais assertiva a busca por soluções, assim como a tomada de decisão baseada em dados. Monitorar de perto as taxas de matrícula e evasão, por exemplo, pode auxiliar diretores financeiros a construírem estratégias de atração e retenção de alunos.

Nesse sentido, o crédito educacional se apresenta como alternativa, proporcionando ao estudante concluir o curso com maior tranquilidade financeira. A possibilidade de quitar o investimento total somente após a formatura – seja a partir de programas subsidiados pelo governo ou de programas de crédito privado sem juros remuneratórios – estimula o ingresso do jovem e, ainda, ajuda no combate à evasão.

Essas iniciativas, embora distintas, compartilham um objetivo comum: cultivar e valorizar nosso potencial. É fundamental continuarmos buscando soluções que ampliem o acesso ao ensino superior, reduzam as desigualdades e promovam a mobilidade social, transformando a realidade das famílias por meio da educação. Não podemos abrir mão dos nossos talentos.