Segundo relatório “Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI)”, publicado em julho de 2024, cerca de 2,5 milhões de pessoas no Brasil estão em situação de insegurança alimentar severa (quando a pessoa está de fato sem acesso a alimentos, e passa um dia inteiro ou mais sem comer). Um total de 70,3 milhões de pessoas no país enfrenta algum grau de insegurança alimentar, o que significa que nem sempre têm acesso a uma quantidade suficiente de alimentos. No mundo, 2,4 bilhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave e 730 milhões de pessoas estão em situação de fome no mesmo ano.
Esses números exigem um novo destaque para a importante campanha lançada em 2021 pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), que propõe mudanças na forma como a data de validade é apresentada nos alimentos não perecíveis. A ideia é que a data de vencimento continue na embalagem, mas com a indicação de que o consumo deve ocorrer preferencialmente até aquele dia. Isso significa que, após essa data, o alimento ainda pode estar adequado e seguro para consumo. O conceito regulatório seria baseado no "best before" (melhor antes), que sugere que o produto deve ser consumido preferencialmente antes do término de sua validade indicada na embalagem.
Este seria o período mínimo em que um produto mantém o sabor e o valor nutricional, caso esteja armazenado conforme as determinações do fabricante e com a embalagem fechada. A ideia é que, após esse período, o consumidor descubra se o produto ainda está adequado ao consumo conferindo, ele mesmo, cheiro, aspecto e gosto. A Abia alerta que a adoção do "best before" deve estar vinculada a rígidos programas de qualidade, entre eles o controle e boas práticas de fabricação em relação a aspectos microbiológicos. Segundo a indústria, países que já adotam o conceito não o consideram para produtos que tenham aspectos microbiológicos muito perecíveis, como carnes in natura, leite pasteurizado e queijos frescos.
A mudança deve ser considerada somente para alimentos que permanecem estáveis em temperatura ambiente, como macarrão, conservas, grãos, sucos de frutas, leite UHT ou aqueles que passam por processo de esterilização ou são embalados a vácuo. Ou seja, valeria para alimentos não perecíveis ou de baixo risco de contaminação, desde que atendidas as orientações de armazenamento determinadas pelo fabricante.
De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), na União Europeia, o “best before” reduziu em 10% o desperdício de alimentos no varejo. Segundo a entidade, no Brasil, R$ 3 bilhões são perdidos todos os anos por conta dos prazos de validade. A insegurança alimentar tem que ser enfrentada com a redução do desperdício e este debate deve ganhar força e relevância no Congresso Nacional com urgência, evitando que muito alimento ainda em condições adequadas e seguras para o consumo vá para o lixo.