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Prematuridade: O drama silencioso que custa bilhões por ano

Por DENISE SUGUITANI, diretora Executiva da ONG Prematuridade

O nascimento antecipado de um bebê, antes das 37 semanas de gestação, não é um evento isolado. É o desfecho e o início de uma cascata de acontecimentos que abalam famílias, sobrecarregam o sistema de saúde e geram um custo social e econômico que merece muito mais atenção. A maioria dos partos prematuros representa, ao mesmo tempo, uma urgência médica e um alerta sobre as falhas estruturais no cuidado à gestação.

Segundo levantamento da Planisa, consultoria especializada em custos hospitalares, o Brasil gasta cerca de R$ 13,5 bilhões por ano com internações de recém-nascidos prematuros em UTIs neonatais. O número se mantém praticamente estável há três anos e seria reduzido em quase 50% se o país tivesse a mesma taxa de prematuridade dos países desenvolvidos. Hoje, 12% dos bebês brasileiros nascem antes do tempo, contra uma média global de 10%.

Mas a conta não termina na alta hospitalar. O prematuro apresenta maior risco de complicações respiratórias, infecções e atrasos no desenvolvimento. Muitos passam as primeiras semanas de vida conectados a aparelhos, enfrentam grandes cirurgias, infecções, apneias e outras intercorrências que resultam em longos períodos de internação. Mesmo após a alta, precisam de acompanhamento contínuo, com profissionais de saúde especializados em diversas áreas. Trata-se de um cuidado prolongado, que tem um impacto psicológico e financeiro enorme para as famílias e consome também uma soma significativa de recursos públicos. Tudo isso poderia ser amplamente evitado com políticas públicas e campanhas de prevenção mais efetivas.

Os custos econômicos são bem visíveis. Os custos humanos menos. A prematuridade desorganiza o cotidiano das famílias, afeta a saúde mental dos pais, eleva a taxa de depressão pós-parto nas mães e provoca rupturas conjugais. Muitas mulheres deixam o mercado de trabalho para cuidar de filhos com demandas complexas e, em alguns casos, nunca conseguem retornar. É uma perda silenciosa de renda, produtividade, bem-estar e um indicador de desigualdade. Quanto mais vulnerável é a família, maior o risco de parto prematuro e menor o acesso a cuidados que poderiam preveni-lo.

A cascata, portanto, se estende para o âmbito social. Estudos da psicologia mostram que adultos nascidos prematuros têm mais dificuldades de aprendizado, de socialização e de inserção no mercado de trabalho. São vidas que começam em desvantagem e permanecem enfrentando barreiras. O que nasce como uma emergência neonatal se converte, anos depois, em um problema de capital humano.

E ainda há o impacto sobre a saúde da mulher. Partos prematuros estão frequentemente associados a condições como diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, que podem deixar sequelas permanentes na saúde da mãe e aumentar o risco de complicações em gestações futuras.

A boa notícia é que a maioria dos partos prematuros é evitável. Com acesso a um pré-natal de qualidade, acompanhamento multiprofissional, diagnóstico precoce e políticas públicas voltadas às populações de maior risco, é possível reduzir drasticamente os índices de prematuridade. O desafio está em transformar conhecimento em ação. Não podemos continuar tratando o parto prematuro como um episódio clínico isolado. Ele, na maior parte das vezes, reflete falhas na atenção básica, nas políticas de prevenção e na gestão das desigualdades sociais.

O chamado é para olharmos além dos números. Cada uma dessas histórias começa antes do parto e continua muito depois da alta hospitalar. Prevenir a prematuridade é um ato de responsabilidade coletiva e um investimento inteligente no futuro do Brasil.