Artigos

Quando a inteligência artificial vira paisagem

Por DIEGO SCHERER, professor de História do Colégio Marista Rosário e pesquisador de IA na educação

Que tarefa difícil iniciar um texto sem usar uma ferramenta de inteligência artificial. É tudo devagar, como se as horas no relógio não estivessem ali cobrando o seu preço. Quem sabe eu não abro uma aba e coloco o comando: “Produza um texto de maneira autoral sobre como os estudantes têm vivenciado a experiência da IA em seu dia a dia”. Em 15 minutos estará tudo pronto e eu posso dar essa tarefa por encerrada. O que eu tenho a perder?

Afinal, não temos nada a perder? Aí está um grande equívoco. Temos muito. A IA generativa vivenciou, na minha perspectiva, três fases bem distintas e estamos vivendo uma das etapas mais complexas, a da invisibilidade. Iniciamos com um momento de medo: o que muda a partir de agora com essa ferramenta em nossas mãos? Como nos adaptaremos a esse novo cenário? Como fica a educação com isso tudo?

Quando compreendemos um pouco mais o processo, passamos para a parte da admiração. Que incrível essa ferramenta! Olha como posso acelerar os processos e rapidamente finalizar as tarefas do dia a dia. Como posso pensar diferentes dinâmicas para a minha sala de aula. Foi aí que chegamos à fase que hoje mais me preocupa como pai, educador e cidadão: a fase da invisibilidade.

A IA não nos surpreende mais, ela está em todos os lugares: nas redes sociais, nas propagandas, nas ruas, nas escolas. Ela se tornou visível e invisível ao mesmo tempo, como se fosse parte da paisagem. Assim, novas perguntas precisam ser colocadas: como devemos agir como educadores em meio a esse cenário? Como pais, que responsabilidade nos cabe? E, como escola, que lugar queremos ocupar?

Este é o nosso desafio atual: ensinarmos os estudantes a compreender as potencialidades da IA, mas sem deixar de expor os seus riscos, como a dependência intelectual, os vieses de respostas e, principalmente, a responsabilidade intelectual sobre as suas produções. O caminho ainda é longo e precisamos de cada vez mais espaços para falarmos sobre o tema. Só assim conseguiremos assumir essa responsabilidade como sociedade.