Quando o critério vira voto, a desigualdade vira regra
Há algo profundamente errado quando os municípios que mais precisam são justamente os que menos recebem.
Um levantamento recente mostra um dado que deveria constranger qualquer gestor público: cidades com pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) recebem, em média, menos recursos federais e estaduais do que a média nacional.
Isso não é apenas uma distorção. É um retrato de como o Brasil distribui prioridades — e, pior, de como a política muitas vezes reforça desigualdades em vez de corrigi-las.
O problema se agrava quando o principal critério de distribuição de recursos passa a ser político e não técnico. Quando o orçamento depende cada vez mais de emendas parlamentares, a lógica deixa de ser necessidade e passa a ser voto. E aí o resultado é previsível.
Os municípios menores, com menos população e menor peso eleitoral, ficam para trás. Não têm bancada forte, não têm volume de votos que justifique prioridade política e acabam fora do radar. Justamente aqueles com menor IDH — que deveriam ser o foco de qualquer política pública séria — tornam-se invisíveis.
É uma inversão completa de lógica. Em vez de usar o orçamento público como instrumento de redução de desigualdades, transforma-se o recurso em ferramenta de sobrevivência política. Prefeitos passam a disputar atenção em Brasília, deputados priorizam suas bases eleitorais mais relevantes e o país vai, silenciosamente, aprofundando o abismo entre regiões.
Não é por falta de dinheiro. É por falta de critério. Um modelo de distribuição baseado em indicadores objetivos — como renda, educação, saúde e infraestrutura — naturalmente direcionaria mais recursos para quem mais precisa. Mas isso exige planejamento, coordenação e, sobretudo, disposição política para abrir mão de decisões discricionárias.
E é exatamente aí que está o ponto. Quanto mais o orçamento fica pulverizado em emendas, menos ele responde a uma estratégia nacional de desenvolvimento. E mais ele responde a interesses locais imediatos, muitas vezes desconectados de qualquer visão de longo prazo.
O resultado é um Brasil que investe mal e de forma desigual. Se quisermos enfrentar de verdade as disparidades regionais, não basta aumentar o volume de recursos. É preciso mudar o critério de distribuição.
Caso contrário, continuaremos repetindo o mesmo erro: dar menos a quem mais precisa — e chamar isso de política pública.