Artigos

Quanto você vale?

Por ALESSANDRA BERGMANN, jornalista e palestrante

Há mulheres que fazem tanto todos os dias que acabam acreditando que não fazem nada demais. Cansei de ouvir de mulheres rurais dos mais diversos lugares do Brasil: “Ah, eu só ajudo um pouquinho em tudo”. Quando questiono o que fazem na propriedade. O “só” sempre me chama a atenção. Porque, muitas vezes, esse “pouquinho em tudo” significa cuidar da gestão, acompanhar a produção, tomar decisões, administrar a casa, organizar a família, participar das vendas, lidar com documentos, cuidar dos animais e ainda estar disponível para tudo o que acontece. Como se uma enorme soma de responsabilidades pudesse ser reduzida a uma palavra: ajuda.

Não é falta de competência. É uma construção cultural. Durante muito tempo, mulheres foram ensinadas a cuidar antes de se reconhecer, a entregar antes de se posicionar e a celebrar o sucesso dos outros antes de perceber o próprio. No campo, essa invisibilidade pode ser ainda mais silenciosa. Muitas mulheres rurais não se apresentam como protagonistas porque aprenderam a chamar de “ajuda” aquilo que, na prática, é parte essencial do negócio.

É por isso que reconhecer uma mulher tem uma força que vai muito além de um troféu. O reconhecimento público não cria o valor. Ele revela o valor. Quando uma mulher do campo percebe que aquilo que faz tem importância, alguma coisa muda dentro dela e muda em tudo que está a sua volta. Todos saem ganhando com isso. Valor pessoal não é arrogância. É consciência. É saber que o fato de alguém não enxergar sua importância não diminui aquilo que você vale. É compreender que reconhecimento externo é desejável, mas não pode ser a fonte da própria identidade.

Talvez um dos grandes desafios para as mulheres rurais hoje seja justamente esse: não apenas conquistar espaço, mas reconhecer que elas já têm valor dentro dele. Por isso, realizar um prêmio exclusivo para mulheres rurais dentro da Expointer representa mais do que celebrar vencedoras. É um movimento simbólico. É colocar essas mulheres no centro da cena e dizer, diante de milhares de pessoas, que suas histórias, suas escolhas, sua inteligência, seu trabalho e sua contribuição importam.

Porque uma mulher que reconhece o próprio valor deixa de pedir licença para ocupar o lugar que já é dela e, quando muitas mulheres fazem isso juntas, não estamos apenas mudando trajetórias individuais. Estamos mudando a cultura.

O reconhecimento de uma mulher pode começar no palco, mas o verdadeiro prêmio acontece quando ela volta para casa se enxergando diferente.