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Renegociação de dívidas: um passo em direção à resiliência climática

Por Darci Hartmann, presidente do Sistema Ocergs

Os últimos anos foram desafiadores para o agro gaúcho. Com eventos climáticos cada vez mais extremos, o Rio Grande do Sul tem sido castigado tanto pela seca quanto pela chuva em excesso. As safras frustradas pelas estiagens e enchentes representam prejuízos da ordem de bilhões de reais. De 2020 a 2024, produtores deixaram de colher mais de 40 milhões de toneladas de grãos, o equivalente a uma perda de R$ 117 bi em valores atualizados, conforme a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

Nesse contexto em que se faz urgente a adoção de medidas de adaptação, o agricultor gaúcho se vê diante de um impasse: precisa investir em alternativas para conter novos prejuízos frente às mudanças climáticas, ao passo que lida com a incapacidade financeira gerada, justamente, pelos efeitos dessas mudanças. É como uma bola de neve. Caminhar rumo à resiliência almejada passa, necessariamente, por solucionar essa equação — uma missão de todos nós.

Representando 370 cooperativas, distribuídas em sete ramos, e mais de 3,8 milhões de cooperados gaúchos, o Sistema Ocergs é um dos atores que têm trabalhado, de forma proativa e coordenada, para solucionar o endividamento rural, não só das cooperativas agropecuárias, mas do agro gaúcho como um todo. Essa construção, iniciada em março, ganhou consistência em audiência pública na Expodireto, com participação de entidades representativas do setor, parlamentares e governo do Estado.

A principal saída ventilada foi a securitização de dívidas, a exemplo do que já ocorreu anos atrás, para que os produtores possam repactuar suas pendências em até 20 anos. Tal medida garantiria condições de acesso a novas linhas de crédito, mitigando o risco de perda de produção futura por incapacidade financeira.

De lá para cá, a pauta avançou. A proposta apresentada pelo Piratini e atualmente discutida em Brasília é o aproveitamento do Fundo Social, constituído por royalties do petróleo e das vendas do pré-sal. A medida — posta como uma saída para viabilizar a securitização sem gerar gastos à União — seria capaz de injetar R$ 20 bilhões para suprir o passivo dos produtores e avançar nos investimentos em irrigação, evitando perdas futuras.

O clima mudou, as práticas no campo precisam mudar, mas o produtor está exaurido financeiramente. A tecnologia mostra que temos muitos caminhos para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, desde que tenhamos condições econômicas para tal. A adimplência do produtor, a partir do alongamento das dívidas, é o primeiro passo para garantirmos a continuidade da produção e um futuro sustentável para o agro.