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Robert Hall e o Nobel: o futuro entra na conta das famílias

Por GIACOMO BALBINOTTO NETO, professor de Economia do PPGE/UFRGS

Uma família descobre que terá aumento de salário no próximo ano e começa a planejar a reforma da casa. Outra recebe um bônus inesperado, mas prefere poupá-lo. Por que decisões tão diferentes? A resposta ajuda a entender a contribuição de Robert Hall, que divide com Michael Woodford o Nobel de Economia de 2026.

Desde John Maynard Keynes, sabemos que o consumo tende a crescer quando a renda aumenta. Milton Friedman e Franco Modigliani, também laureados com o Nobel de Economia, mostraram que as famílias consideram não apenas a renda atual, mas os recursos que esperam ter ao longo da vida.

Em 1978, Hall deu um passo além. Sob hipóteses específicas, demonstrou que mudanças no consumo não deveriam ser previsíveis com informações já conhecidas. É a hipótese do “passeio aleatório”: em sua versão mais simples, a melhor previsão para o consumo de amanhã é o de hoje. Não porque as pessoas gastem ao acaso, mas porque só notícias inesperadas exigiriam uma revisão de seus planos. A descoberta mudou o debate sobre política econômica. Uma redução temporária de impostos pode ter efeito diferente de um aumento duradouro da renda. Importam as expectativas e a possibilidade de poupar ou tomar empréstimos.

O Bolsa Família ilustra um limite importante dessa teoria. Uma família pode saber quando receberá o benefício e, ainda assim, precisar esperar o depósito para comprar alimentos. Outra, com reservas ou crédito, consegue antecipar gastos. Pesquisas posteriores a Hall mostraram por que essas restrições financeiras importam. Para o governo, não basta calcular quanto transferir. É preciso considerar quem recebe, por quanto tempo e em quais condições. Aliviar a pobreza e estimular a atividade são objetivos distintos, que exigem avaliações próprias.

O Nobel reconhece em Hall uma mudança duradoura na forma de entender o consumo: o futuro pesa nas decisões de hoje. Mas, para quem não tem poupança nem crédito, saber que o dinheiro virá não significa poder gastá-lo. É nessa distância entre expectativa e possibilidade que a política econômica precisa prestar atenção.