A cada ano, as empresas têm se deparado com novos eventos desafiadores. Se antes enfrentamos a pandemia e seus efeitos duradouros, há poucos meses fomos surpreendidos pelas enchentes. O setor calçadista, que historicamente lida com adversidades, merece uma atenção especial nesse contexto. Segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), a catástrofe climática impactou 48% das companhias do ramo coureiro-calçadista do Rio Grande do Sul.
As inundações comprometeram a infraestrutura das fábricas, a logística de distribuição e, sobretudo, a cadeia de fornecimento. Como principal fornecedor de componentes para calçados do país, o Estado precisou de, pelo menos, dois meses para que iniciasse sua reorganização. E ainda levará mais alguns para se estabilizar.
Assim como na Covid, os reflexos surgem com o passar do tempo. E agora não será diferente, a recuperação lenta conduz ao represamento. O setor registrou um aumento dos volumes em julho e agosto, o que deve seguir acontecendo no restante do ano. Vencida a pandemia, chegamos a acreditar que o Brasil iria assumir com força as exportações — o que, no início, aconteceu, com algumas companhias que não estavam mais por aqui retomando as operações.
Ainda não há como afirmar se vamos recuperar o ano, mas há razões para otimismo. A imprevisibilidade resultante da volatilidade da moeda norte-americana gera receio — reduzindo a importação não só de calçados prontos, como também de componentes. Esse fator favorece a competitividade brasileira, o que impulsiona o crescimento da produção no segundo semestre. Com isso, podemos esperar uma expansão em torno de 7% ou 8% acima do registrado no mesmo período de 2023.
Diante de tantas incertezas, é crucial que as empresas disponham de um mapa de risco com estratégias definidas para auxiliar na mitigação de impactos. Isso envolve identificar os principais perigos e, para além do diagnóstico, desenhar as respostas para garantir a sustentabilidade do negócio. Na prática, se houver um rompimento de cadeia, o que devo fazer? E se tiver uma disparada do dólar, como me resguardo? Com problema e solução, tudo mapeado.
Todos esses fatores têm exigido do setor uma capacidade única de resiliência. Mas, principalmente, uma postura firme endereçada ao futuro, preparando-se para todos os cenários possíveis, inclusive o pior deles. Cada vez mais, negócios sólidos dependem de inovação, conexão com as tendências, transformação e reinvenção — muitas vezes, até mutação. Devemos nos antecipar sempre para não sermos surpreendidos por um novo evento. O mundo não nos espera, nós que precisamos agir.