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Teste do pezinho: uma conquista que não pode parar de evoluir

Por ROBERTO GIUGLIANI, professor titular da Ufrgs e médico geneticista do HCPA

Neste Junho Lilás, mês dedicado à conscientização sobre a triagem neonatal, temos a oportunidade de refletir sobre uma das políticas públicas de saúde mais transformadoras das últimas décadas. Conhecido como teste do pezinho, esse exame simples, realizado nos primeiros dias de vida, vem mudando a história de milhares de crianças ao permitir que condições graves sejam identificadas antes mesmo do surgimento dos sintomas.

A discussão ganha ainda mais relevância neste momento em que o Rio Grande do Sul anuncia a ampliação da triagem neonatal na rede pública, passando a incluir o rastreamento das imunodeficiências primárias e da atrofia muscular espinhal (AME).

Tive a satisfação de acompanhar a trajetória do teste do pezinho desde seus primeiros passos. Na década de 80, quando o exame ainda era muito incipiente no Brasil, protagonizamos iniciativas pioneiras no Estado. Naquele período, muitos ainda desconheciam o potencial dessa estratégia. Hoje, seus benefícios são amplamente reconhecidos pelos profissionais de saúde e pela sociedade.

A criação do Programa Nacional de Triagem Neonatal, há 25 anos, representou um marco para a saúde pública brasileira. Ao tornar o rastreamento uma política nacional, o país passou a garantir que milhões de recém-nascidos tivessem acesso a uma ferramenta capaz de detectar patologias tratáveis em uma fase na qual as intervenções são mais eficazes. Foi uma conquista coletiva que colocou o Brasil entre as nações comprometidas com o diagnóstico e o tratamento precoces, reconhecendo a prevenção como uma aliada fundamental para evitar manifestações potencialmente graves de inúmeras enfermidades.

Desde então, a ciência avançou de forma extraordinária. O teste do pezinho, que inicialmente identificava um número reduzido de condições, aumentou sua capacidade diagnóstica graças ao desenvolvimento de novas tecnologias laboratoriais e ao maior conhecimento sobre as doenças raras. Paralelamente, novas terapias passaram a estar disponíveis para muitas delas.

Atualmente, diversos países contam com programas de triagem neonatal capazes de rastrear dezenas de patologias, em sua maioria raras, para as quais já existem tratamentos que podem alterar significativamente o prognóstico dos pacientes. No Brasil, a legislação também aponta nessa direção, sinalizando a ampliação gradual desse alcance.

Passados 25 anos da criação do programa, o desafio é continuar expandindo a cobertura do exame, incorporando os avanços da ciência e garantindo que cada criança tenha acesso aos benefícios do diagnóstico precoce. Afinal, quando uma doença tratável é detectada antes de se manifestar, temos uma oportunidade preciosa de transformar um destino.