Vivemos tempos difíceis. É preciso ter resiliência. Já passamos por maus bocados, mas ainda há muito por enfrentarmos. Nossa Porto Alegre já não é mais tão alegre. Nosso pôr do sol, o cartão-postal da cidade, deu lugar a um Guaíba revolto e que praticamente engoliu a capital dos gaúchos. Nossa história foi levada pelas águas. Nosso legado, nosso patrimônio. Cidades inteiras foram devastadas e outras tantas lutam para se reerguer. Famílias foram separadas, economias dilaceradas e a saúde pede socorro.
O impacto no sistema de saúde é brutal. Levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que mais de três mil estabelecimentos de saúde foram potencialmente atingidos, de hospitais a postos de saúde, farmácias e clínicas particulares. Só em Porto Alegre, são 1.141 locais afetados. O governo do Estado calcula danos estruturais em, pelo menos, 163 unidades básicas de saúde, nove hospitais, três pronto-socorros, cinco unidades de pronto atendimento e
14 farmácias. E, mais do que pensar em como reconstruir esses espaços, é fundamental pensar em como fica a assistência da população. Para isso, mais do que nunca, precisamos valorizar as unidades que estão de pé, os abrigos e os hospitais de campanha.
Nossos desabrigados precisam de ajuda. Muitos tiveram contato direto com a água da enchente, expostos à leptospirose. Enquanto escrevo este artigo, já se contabilizam cinco mortes e outros 124 casos da doença. O contato de águas fluviais com lixo, produtos químicos e sujeira eleva a probabilidade de enfermidades como cólera, hepatite A e B, além de outras infecções gastrointestinais, fora as respiratórias. E as doenças crônicas que necessitam de tratamento contínuo
foram interrompidas sem qualquer previsão de retorno, com possibilidade de agravamento da situação. E campanhas de vacinação, como as da gripe e da Covid. E os problemas psicológicos. Enfim, foram muitos os traumas que essa catástrofe deixou.
Precisamos ter mais do que consciência, precisamos ter atitude coletiva. Já diz a Bíblia: assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta. Não será fácil para o setor se reerguer. Enfrentava limitações, com demandas muito altas e parcos recursos. E, agora, para muitos, tudo ou parte foi perdido e precisará ser readquirido ou alterado. A saúde está na UTI. Não podemos deixá-la morrer. É preciso gestão ética nos recursos escassos. Pela nossa sociedade gaúcha