Artigos

Trilhões à procura de previsibilidade

Por MARCELLO BELTRAND, jornalista e consultor em relacionamento institucional

Há hoje cerca de 3,9 trilhões de dólares em “dry powder", expressão que traduz o dinheiro que investidores e fundos já levantaram, mas ainda não investiram — e que se somam a fluxos anuais de investimento estrangeiro direto (IED) de cerca de 1,5 trilhão de dólares no mundo (Bain & Company). É um rio de dinheiro em busca de retorno e, especialmente, previsibilidade.

O Brasil colheu parte disso: 77 bilhões de dólares em IED em 2025, quinto maior destino global de investimento estrangeiro, segundo dados da UNCTAD, à frente de quase toda a América Latina. Mas isso, atenção, representa menos de 2% do capital privado ocioso no mundo. Nossos ecossistemas econômicos — agronegócio, energia, tecnologia, infraestrutura, saúde — têm escala de sobra para atrair uma fatia bem maior desse capital. O gargalo não é falta de oportunidade, é falta de confiança.

É aqui que pesa a crise institucional em torno do STF. Analistas apontam que decisões imprevisíveis e casos como o Banco Master reforçam a insegurança: contratos e precedentes tidos como consolidados voltam a ser questionados. Para o investidor, isso não é debate jurídico abstrato, é risco precificado. Capital de longo prazo, o mais desejável para infraestrutura e inovação, é o primeiro a recuar diante da incerteza institucional.

Segurança jurídica é uma condição fundamental para contextos estáveis, tão importante quanto a existência do capital, pois condiciona decisivamente a alocação. Robert Lucas, reconhecido economista, descobriu que os capitalistas, na decisão alocativa, preferem retornos menores e certos em vez de retornos maiores e riscos.

Oliver Williamson, Nobel de Economia em 2009, deu a essa intuição um nome preciso: custos de transação. Seu argumento é que contratos são inevitavelmente incompletos — ninguém antecipa todas as contingências futuras —, o que abre espaço para o oportunismo, que gera custos de negociar, monitorar e fazer cumprir acordos. Instituições confiáveis existem para reduzir esse custo: onde a confiança institucional é alta, o capital flui; onde ela se erode, cada contrato exige mais garantias e mais prêmio de risco — e menos investimento chega.

A lição: atrair os trilhões disponíveis no mundo depende menos de incentivos fiscais pontuais e mais de reconstruir, de forma sustentada, a confiança nas instituições que garantem o cumprimento dos contratos.