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Um soldado conhecido

Por Cezar Miola, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado

Ao som da comovedora canção de Guilherme de Almeida (“Por mais terras que eu percorra…”), 25 mil brasileiros embarcaram para a Itália em 1944, missão da qual, infelizmente, nem todos retornaram. Era a gloriosa Força Expedicionária Brasileira (FEB), que neste 8 de maio, marcando o término da Segunda Guerra, é mais uma vez lembrada por sua fibra, bem ilustrada com a épica tomada de Monte Castelo. Nunca será demasiado repetir que o conflito de 1939/1945 representa uma das maiores tragédias da humanidade, ceifando mais de 60 milhões de vidas (sendo 6 milhões de judeus no Holocausto).

Em terras distantes, esses bravos superaram adversidades, privações e perplexidades, enfrentando o ódio nazifascista e lutando em defesa da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da democracia.

Histórias que tantas vezes ouvi de um pracinha brasileiro e que, portanto, não me é um “soldado desconhecido” (este também, merecida e justamente, homenageado em solenidades mundo afora). Trata-se de quem me mostrou caminhos e, com serena sabedoria, ajudou a construir em tudo do que participou (próprio de quem serviu na Engenharia do Exército).

Navegando na “Canção do Expedicionário”, vemos os sinais de uma brasilidade que no front teve a marca da união e do respeito (o que nem sempre se verificava em forças aliadas, onde a segregação era notória). E também houve quem se encantasse com a sua Gioconda, como poetizou Vicente Celestino.

Meu soldado conhecido, na sua simplicidade, sempre teve orgulho da farda que envergou, legando aos seus e aos próximos o significado da solidariedade, do respeito às instituições e aos seus representantes, do cuidado com o patrimônio coletivo. E, na herança de valor inestimável, o apreço à educação como efetiva força transformadora; educação feita pelo exemplo e no reconhecimento à importância da escola pública, que grande falta lhe fez e pela qual hoje me movo.

Esse pracinha, e tantos companheiros de jornada, viveu com dificuldades e na modéstia própria dos grandes; dos autênticos heróis da Pátria, sem patriotadas. Traumas trazidos “a bordo” e desencantos no desembarque não afetaram seu amor ao país, perseverando no bom combate e guardando a fé. A mesma fé que era sua “terapia”, amparado no Manual de Orações do Soldado Brasileiro, quando a saudade, a angústia e a tristeza lhe faziam companhia.

Esse guerreiro, na sua humildade, talvez ruborizasse ao me ler agora, mas, provavelmente, esteja repetindo que “a cobra fumou” junto ao Velho Continente. E que a vitória final cantada pelos expedicionários chegou. A vitória, com seu “V” tantas vezes alegorizado por Churchill. O mesmo “V” da vida, ela que, apesar de tantas dores e provações, venceu.

O querido soldado Mário fez, e sempre fará, parte disso.