Artigos

Uma Feira para novos leitores

Por ROSENI SIQUEIRA KOHLMANN, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro

A formação de leitores começa quando uma história desperta curiosidade. Às vezes, esse encontro acontece nas páginas de um livro. Em outras, em uma história em quadrinhos que apresenta personagens capazes de alimentar a imaginação. Reconhecer esses caminhos é também reconhecer que o gosto pela leitura pode nascer de linguagens que vão além da palavra escrita.

Com esse olhar, a 72ª Feira do Livro de Porto Alegre apresenta uma novidade: a chegada, à programação oficial do evento, do Animextreme — um dos maiores eventos de cultura pop, geek, gamer e asiática do Sul do Brasil —, nos dias 1º e 2 de novembro, na Praça da Alfândega. A iniciativa aproxima a Feira de públicos que nem sempre se veem nos formatos tradicionais de leitura e amplia as possibilidades de encontro entre livros e cultura pop.

Quadrinhos e mangás, por exemplo, combinam texto e imagem, exigindo do leitor a interpretação de diferentes cenários e sequências narrativas. Os animes, por sua vez, podem despertar o interesse por histórias que também existem nos livros. Não se trata de substituir uma linguagem por outra, mas de compreender que o gosto pela leitura pode nascer de diferentes experiências culturais.

Essa aproximação é especialmente importante diante dos desafios atuais. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, do Instituto Pró-Livro, mostrou que 53% dos brasileiros não haviam lido nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. O dado reforça a necessidade de criar novas portas de entrada para a leitura e de abrir oportunidades para que crianças e adolescentes a descubram como experiência de conhecimento e pertencimento.

Ao longo de mais de sete décadas, a Feira do Livro de Porto Alegre construiu uma trajetória ligada à democratização do acesso aos livros e à formação de leitores. Esse compromisso se renova também na programação destinada às escolas, que promove o contato dos estudantes com autores, obras e diferentes perspectivas de mundo. Valorizar a diversidade de vozes é fundamental para que cada criança e jovem encontre histórias nas quais possa se reconhecer e outras que ampliem sua compreensão da sociedade.

Uma Feira que atravessa gerações precisa olhar para o presente sem abrir mão de sua essência. Isso significa preservar o livro como protagonista, mas também acolher as linguagens que mobilizam os leitores de hoje. Afinal, formar leitores não é determinar por onde cada um deve começar. É abrir portas para que descubram, à sua maneira, o poder das histórias.