Do Leitor

As palavras e nossos sotaques.

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As palavras

Prezados leitores, caso algum de vocês seja dado ao ofício de “poetar”, verifique bem como usa essas belezinhas conhecidas como “palavras”. Como as agrupam, como as transformam, como as fazem transcender, os recursos de linguagem que utilizam para valorá-las. Não basta a sensibilidade para perceber a poesia que existe por aí, mundo afora; é imprescindível esse conhecimento teórico, esse esforço racional e artístico, para fazer com que aquilo que se quer comunicar ao outro seja mesmo percebido (e sentido) por ele e não como se fora “Batatinha quando nasce / Espalha rama pelo chão / Menininha quando chora / Põe a mão no coração”. Não bate. Não diz nada.
João Antônio Pereira, Porto Alegre, via e-mail

Nossos sotaques

Há quem pense que o sotaque é apenas um jeito torto de pronunciar as palavras. Não é. Sotaque é história, é geografia e é memória atravessando a voz. No Rio Grande do Sul, bastam poucas frases para saber de onde vem o falante. Na Serra, a fala traz outra cadência, herança das vozes italianas que moldaram a região. Em Porto Alegre, as vogais se abrem mais e o sotaque urbano marca presença com naturalidade. Já na fronteira, a língua parece respirar outro ar. Aqui em Uruguaiana, a palavra gosta de campo largo. A última sílaba se espicha como cavalo em disparada pela campanha. O “e” de leitE quentE sai fechado, nítido, quase assobiado — um detalhe pequeno que nos entrega antes mesmo de dizermos de onde viemos. Talvez seja também coisa de fronteira. Vivendo ao lado do espanhol, nossa fala aprendeu uma cadência própria, meio portuguesa, meio platina. Porque sotaques nascem assim: do encontro entre povos, das viagens da história, das vozes que convivem lado a lado até que a língua invente um jeito novo de soar. Sotaque não é apenas som, é biografia coletiva.
Valéria Surreaux, Uruguaiana, via e-mail