Do Leitor

Fiscalização eletrônica e Clarice Lispector.

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Sobre fiscalização eletrônica

Não tenho nada contra essa tecnologia. É só dirigir obedecendo às regras, e está tudo bem. Mas que essas instalações são grotescas e enfeiam a cidade…

Ramiro J. Pérez, Porto Alegre

Num labirinto

Ler a autora Clarice Lispector é como entrar em um labirinto, não querer encontrar mais saída, tal a mestria com que ela nos conduz em suas narrativas etéreas e, ao mesmo tempo, doloridas. “A Hora da Estrela” é considerada a sua obra-prima e o livro ideal para começar a ler Clarice. É o único livro com narrador masculino, que diz sobre a personagem Macabea: “Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha.” Neste livro, há uma cena icônica na qual Macabea pede um comprimido e diz que lhe doía tudo; a personagem nem tem consciência do que sente. “A Paixão Segundo G.H.” (1964) é o seu livro mais famoso e desafiador. É um monólogo intenso, no qual uma mulher, após esmagar uma barata na parede de seu apartamento, entra em um processo de desconstrução da própria identidade e realidade. É uma leitura densa e considerada uma das grandes experiências filosóficas da literatura brasileira. “Perto do Coração Selvagem” foi o romance de estreia de Clarice, que revolucionou o cenário literário brasileiro. Ele foca na vida interior e nos questionamentos existenciais da protagonista Joana. É ótimo para entender a formação do estilo inconfundível da autora. “Laços de Família” possui narrativas curtas. Se tu preferes contos, esta é a coletânea mais famosa e elogiada. O livro reúne 13 histórias focadas na classe média, em que o insólito e os conflitos psicológicos invadem a rotina familiar. Arrisque-se. Depois da primeira página, dificilmente haverá vontade de encontrar a saída desse labirinto chamado Clarice Lispector.

Marisa Piedras, Porto Alegre