E os bolichos?
Havia um cheiro que só os bolichos tinham. Mistura de fumo, erva-mate, madeira antiga, querosene, couro, café e rapadura. E, sobre o balcão, a canha. Nas prateleiras, azeite, balas de goma, açúcar, pequenos luxos de outros tempos. Havia bolichos por toda parte: nos bairros das cidades, quase em cada esquina, e também perdidos na vastidão da campanha. Uns maiores, outros quase uma peça com balcão e prateleiras. Mas todos tinham uma coisa em comum: eram lugares onde se compravam mercadorias e se trocavam histórias. O bolicheiro conhecia os fregueses pelo nome. Sabia quem vinha comprar fumo, quem levava erva, quem precisava de fiado. Bolichos de portas abertas, balcões de madeira escurecidos pelo tempo, sacos de erva-mate, rapadura, balas de goma dormindo dentro de vidros, como pequenas joias ao alcance dos olhos. Na campanha, os peões de estância apeavam por uns goles e uma boa conversa. As notícias chegavam a cavalo e se espalhavam pelo balcão. Hoje, quase desapareceram. Mas basta fechar os olhos. A porta range, a madeira respira, a erva-mate perfuma o ar, e lá fora um cavalo relincha no palanque. Por um instante, os bolichos voltam a existir. Porque há lugares que desaparecem das ruas, mas nunca da memória.
Valéria Surreaux, Uruguaiana
Ferrovia do Trigo
Tudo indica que não se terá uma solução no médio prazo. A Ferrovia do Trigo está desativada e abandonada desde a catástrofe climática de 2024. O escoamento da produção e de cargas gerais recebidas por caminhões é sete vezes mais caro que a logística proporcionada pelos trens. Cerca de 3.500 caminhões foram contratados da tragédia climática até os dias de hoje, para atenderem a demanda, representando mais de vinte mil viagens, abarrotando e detonando as estradas, provocando grandes congestionamentos e graves acidentes com perdas de vidas inocentes e muitos danos materiais. A ferrovia é essencial para a região, mas, infelizmente, nossos governantes não tomam providências para recuperar e retomar a excelência e a importância dos serviços ferroviários no Estado. Lamentável!
Ricardo Reischak, Porto Alegre