Do Leitor

Os trens de Uruguaiana

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Os trilhos cortam Uruguaiana como uma cicatriz antiga que a cidade nunca quis esconder. Estão ali, atravessando bairros, fundos de casas, silêncios e pastos altos, como quem ainda espera algo voltar. Houve um tempo em que os trens rasgavam as madrugadas com seus apitos compridos, quase humanos. A cidade respirava junto com eles. As janelas tremiam. Os cachorros latiam antes mesmo de a locomotiva aparecer. Muita gente dormia ouvindo aquele barulho de ferro e distância, como se o mundo fosse maior por causa dele. O trem nunca transportou apenas passageiros. Levava despedidas apertadas em abraços rápidos, soldados calados olhando pela janela, crianças encantadas com o movimento, mulheres enxugando lágrimas escondidas na plataforma, homens voltando cansados, cartas dobradas dentro de bolsos, sonhos pobres tentando encontrar outro destino. Toda estação tem alguma coisa de coração humano: gente chegando tarde demais, gente indo embora cedo demais, gente esperando o impossível. Depois, os trens partiram de vez. E os trilhos ficaram, abandonados, mas não parecem mortos, parecem interrompidos. Como uma frase que alguém não terminou de dizer. Como um amor que não fechou a porta ao sair. Como uma música antiga que ainda toca baixinho dentro da memória. O mato cresce entre os dormentes, o ferro enferruja devagar, mas basta uma noite silenciosa para a imaginação jurar que ainda escuta um apito distante atravessando a cidade. São fantasmas que não assustam. Apenas visitam. E talvez Uruguaiana nunca tenha deixado de esperar aquele trem que desapareceu na curva da madrugada e continuou existindo, para sempre, dentro de quem ficou.

Valéria Surreaux, Uruguaiana, via e-mail

Chimangaço

Em seu arrazoado, o juiz M. Teles de Queirós escreveu, ao condenar determinada pessoa, que o fazia “considerando” ter infringido tais e tais artigos da lei e, especialmente, “considerando que o réu é maragato”.

Paulo de Tarso Riccordi, Porto Alegre, via redes sociais