Do Leitor

Profissões de antanho e divisão.

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Profissões de antanho

Nas cidades pequenas, o tempo não costuma ir embora de uma vez. Vai levando profissões, costumes, personagens — e deixando, aqui e ali, algumas teimosas réstias do passado. Sumiram os engraxates, o entregador de pão que vinha de bicicleta, trazendo o pão d’água ainda morno, enrolado num papel. Sumiu a carroça do leiteiro, com seus grandes tarros, e também o mascate, que atravessava os campos com sua carroça carregada de bugigangas: erva, espelhos, panelas, tecidos, couros curtidos, jarros de louça. Que poesia havia naqueles homens rompendo as distâncias com água Java e leite de magnésia! Mas algumas dessas figuras ainda resistem em Uruguaiana, como se o tempo, distraído, tivesse esquecido de levá-las. O jujeiro, na esquina, vendendo ervas para todos os males. O homem das flores e da poesia, diante do Banco do Brasil. Os carrinhos abarrotados de frutas. São profissões, talvez. Mas são também pedaços de memória andando pelas ruas. E há um certo gosto em encontrá-los. Porque ainda temos réstias de um passado que insiste — e outros ficaram apenas nas lembranças, que, afinal, é tudo aquilo que o tempo não consegue nos tirar e que continua nos alimentando e seduzindo.
Valéria Surreaux, Uruguaiana

Divisão

Está chato demais. Ultimamente, parece que o mundo todo se dividiu em dois, apenas dois, um a favor, outro contra. Qualquer pesquisa — e de muitos e variados assuntos — tem demonstrado isso, metade de um lado, metade de outro, o tal “fifty-fifty”. Sim ou não acabam com o talvez. Fica tudo estanque. A favor ou contra. Parece aquelas provas de marcar “x” nas questões, mas sem uma das possibilidades que sempre gostava de poder escolher como certa: “Nenhuma das opções anteriores”.
Marli Gonçalves, São Paulo (SP)