Do Leitor

Registros e resgates.

Leitores do Correio do Povo opinam sobre o conteúdo publicado pelo jornal na edição impressa e plataformas digitais.

Registros

Houve um tempo em que a cidade chegava à nossa porta. Vinha no leiteiro da manhã, no padeiro de mãos enfarinhadas, no vendedor de laranjas anunciando o sol em cestos, no pipoqueiro, na doceira, na costureira que remendava mais que vestidos. Vinha no alfaiate, no amolador de facas, no arrumador de rádios, capaz de devolver voz ao silêncio. No apito de lata rompendo a noite, anunciando o amendoim enrolado em cubos de jornal. E vinha também no engraxate, artista anônimo do brilho, que transformava poeira em elegância com algumas escovadas e muita conversa. Muitos desses ofícios desapareceram. Outros resistem, tímidos, como fotografias que se recusam a amarelar. Quando nos lembramos deles, a memória abre devagar seus antigos portões. Então ouvimos outra vez o rumor das carroças, o canto dos vendedores, o tilintar dos tarros de leite e os apitos que vagavam pela noite. E por um instante raro, a cidade perdida retorna inteira — não como era, mas como um sino distante que o tempo já não toca e, ainda assim, continua soando.
Valéria Surreaux, Uruguaiana, via e-mail

Resgates

Há muitos lugares de Porto Alegre para serem resgatados como parte da memória histórica da coletividade. O Mercado Livre e a Estação Férrea Ildefonso Pinto são exemplos. Ambos os prédios históricos foram demolidos na gestão do então prefeito Telmo Thompson Flores, no início da década de 1970, que também colocou abaixo a Estação Férrea Central, conhecida como Castelinho, com a finalidade de construir as Elevadas do Complexo do Túnel da Conceição. A “cultura da marreta” deixou marcas amargas no perímetro urbano da chamada Cidade Sorriso. Lamentável e vergonhoso.
Ricardo Reischak, Porto Alegre, via redes sociais