Tempos idos
Sou do tempo das cartas. Das sofridas cartas e das longas esperas pelas respostas. Cartas escritas à mão, dobradas com cuidado, perfumadas às vezes, carregando segredos que viajavam dias inteiros antes de alcançar o destino. Sou do tempo das serenatas. Sou do tempo dos bailes. Voltávamos muitas vezes à costureira para ajustar na cintura os vestidos da grande noite. A ansiedade começava dias antes. E quando finalmente chegava o baile, sentávamos entre amigas, fingindo naturalidade enquanto esperávamos ser tiradas para dançar. O coração, esse traidor, disparava a cada aproximação. As mãos encontravam nossas cinturas com a delicadeza de quem segura um passarinho que pode escapar. Às vezes havia temor, às vezes tremor. Quase sempre esperança. Era o tempo dos conjuntos com seus saxofones, trompetes, baterias reluzentes e cantores de brilhantina impecável. A música enchia os salões e parecia costurar os sonhos da juventude com fios invisíveis. Sou do tempo em que as fotografias eram poucas e as lembranças abundantes. Não registrávamos tudo. Por isso mesmo guardávamos tanto. A memória era o álbum. Os domingos tinham cheiro de galinha assada e, de tarde, ouvíamos ao longe as conversas compridas das avós com as amigas. As praças eram salas de visita sem paredes. Os namoros cresciam devagar, como crescem as árvores de raízes profundas. Ir para o campo era sinônimo de pescarias silenciosas, lombo de cavalo, luas maiores. Talvez não fosse um tempo melhor. Todo tempo carrega suas ausências e suas dores. O que levou tempo para florescer permanece, décadas depois, adornando os labirintos secretos da memória.
Valéria Surreaux, Uruguaiana, via e-mail
Plano Diretor
O povo porto-alegrense, através de seus vereadores, aprovou novo Plano Diretor e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RS, movido por razões ideológicas, solicitou a anulação da lei legitimamente promulgada. Realmente, é muito difícil promover o progresso neste país.
Luiz Serpa, Novo Hamburgo, via e-mail