Editorial

A ameaça da ‘Mão Morta’

Pois vem agora a Rússia a ameaçar com a "Mão Morta", a arma "apocalíptica" que supostamente automatizaria uma resposta nuclear avassaladora se o país for ameaçado, como no filme de Stanley Kubrick.

Não é à toa que, apesar da verborragia que envolve as armas nucleares, as ameaças veladas ou explícitas não chegaram ao seu uso em ataques diretos entre os detentores dos maiores arsenais desde a explosão das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki no final da Segunda Guerra Mundial. A chamada doutrina da destruição mútua assegurada, que pressupõe que a utilização das armas nucleares entre as grandes potências resultaria na aniquilação das partes, é certamente fator inibidor à evolução das palavras para os atos.

Isso não impediu, contudo, que os arsenais crescessem exponencialmente, não só nas mãos das grandes potências, mas também de atores regionais menores. E, mais ainda, até mesmo as ameaças não deixaram de ser constantes. Desde o início da era atômica, em 1945, foram muitas as escaladas que, por vezes, mantiveram o mundo em suspense, como a sempre lembrada crise dos mísseis de Cuba, um confronto que em 1962 colocou frente à frente as maiores potências nucleares do planeta, os Estados Unidos e a então União Soviética, que tem hoje como herdeira a Rússia de Vladimir Putin.

O equilíbrio do medo é provavelmente a principal razão para que a capacidade de dissuasão seja exatamente o maior atrativo para a manutenção e crescimento dos arsenais. Como se não bastasse, um dos frutos podres da árvore do mal nuclear é a “máquina do juízo final”, ou “botão do apocalipse”, um mecanismo real ou ficcional magistralmente apresentado às plateias leigas do mundo pelo filme Dr. Fantástico, dirigido em 1964 por Stanley Kubrick. Pois vem agora a Rússia a ameaçar com a “Mão Morta”, a arma “apocalíptica” que supostamente automatizaria uma resposta nuclear avassaladora se o país for ameaçado, como no filme de Kubrick. E já conseguiu gerar resposta verbal dos EUA, num crescendo de ameaças que leva muitas pessoas em todo mundo a pensar no risco de que algum dia um desses detentores do poder mortal aperte o botão da destruição do mundo como o conhecemos.