Editorial

A pressa de quem tem fome

A fome grassa num planeta marcado por conflitos bélicos, tragédias climáticas, perseguições políticas e étnicas, desvio de tributos para uso em outras atividades que não aquelas que sejam em prol do bem-estar das coletividades.

Um dos grandes impasses para que as pessoas tenham uma boa qualidade de vida, com exercício da cidadania e fortalecimento das democracias, diz respeito à insegurança alimentar. Atualmente, mais de 700 milhões de pessoas estão submetidas aos efeitos da fome neste 2025, sendo que, desse montante, são 29 milhões de brasileiros vivendo em condições adversas, com dificuldades de obter a alimentação adequada. Os números são significativos e demonstram o quanto é importante que as políticas públicas internas e os acordos internacionais tenham como meta equacionar uma questão de tanta relevância.

Num planeta marcado por conflitos bélicos, tragédias climáticas, perseguições políticas e étnicas, desvio de tributos para uso em outras atividades que não aquelas que sejam em prol das coletividades, o resultado é perturbador, gerando pobreza e desnutrição, como temos visto em vários países com cenários conturbados internamente. A desestruturação da produção, a falta de ofertas de trabalho e a péssima distribuição de renda são fatores que impactam na capacidade de consumo das famílias. Não é incomum ver crianças ou idosos com a saúde comprometida por conta da falta de nutrientes, fazendo com que seus organismos, fragilizados, sejam alvo de doenças oportunistas, não raro levando a óbito ou a incapacitações permanentes. É por isso que iniciativas como o trabalho humanitário que visa levar comida para esses segmentos vulneráveis precisam contar com o apoio de todas as nações estabilizadas do mundo civilizado. Para agravar a situação, por outro lado, sabe-se que o desperdício alimentar existe e é o outro lado de uma equação que não fecha, já que esse total perdido supera um bilhão de toneladas de alimentos.

Nessa seara, vê-se que diversos princípios básicos, como o da dignidade humana, que está na base da Constituição brasileira e em diversos documentos essenciais da ONU, precisam receber a devida atenção. Urge que haja, mais do que levantamentos e estatísticas, ações concretas, uma vez que a fome não tem margem de espera para ser saciada.