Editorial

Analfabetismo, um desafio persistente

Essa dificuldade de absorção de conteúdos, que vai de contas simples, passa por entender um preço de um produto e chegam até mesmo à decifração de um simples recado ou SMS, atinge em massa brasileiros com idades entre 15 e 64 anos.

Um estudo denominado Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em conjunto com outras entidades parceiras no país, indicou que três em cada dez brasileiros estão num estágio de analfabetismo funcional, com dificuldades de escrever ou de interpretar textos curtos, bem como de realizar operações básicas de matemática. Isso representa um montante de mais de 63 milhões de pessoas, o que equivale a um contingente maior que as populações de Portugal e da Espanha juntas. Considerando-se que essa dificuldade de associação de ideias e de conteúdos também se transfere para o mundo digital, pode-se dizer que esse segmento também encontra dificuldades de se inserir num mundo cada vez mais voltado para o uso tecnológico no cotidiano.

Essa dificuldade de absorção de conteúdos, que vai de contas simples, passa por entender o preço de um produto e chega até mesmo à decifração de um simples recado ou SMS, atinge em massa brasileiros com idades entre 15 e 64 anos. Pela amplitude etária, é possível perceber que o problema perpassa gerações, abrangendo tanto quem está ingressando na vida ativa como quem já se encontra na chamada terceira idade. Isso dá a dimensão do desafio que o país precisa enfrentar, melhorando os indicadores educacionais na educação básica e também propiciando que aqueles que já têm uma história de vida igualmente possam ter acesso a um aprendizado que, por diversas razões e motivos, não lhe foi entregue no passado. Não se pode esquecer que essa realidade é também fruto do não cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), de 2014, que tratava expressamente desse assunto, buscando reduzir tanto o analfabetismo absoluto quanto o funcional.

Diante desse panorama, resta esperar que o poder público se aproprie desses dados e repense suas estratégias para erradicar o analfabetismo em todas as suas formas. Não é possível exercer a cidadania com limitações que não permitem intuir acerca de informações básicas do dia a dia.