Editorial

As advertências de especialistas sobre os efeitos de El Niño no país

Os alertas sobre as ondas de calor não podem ser ignorados pelos governantes.

Pode parecer um paradoxo falar em ondas de calor e em suas consequências enquanto os gaúchos e outras regiões próximas enfrentam os rigores do inverno, mas a verdade é que a prevenção é cabível em qualquer tempo, ainda mais quando se sabe que as condições climáticas ciclicamente se agravam, tornando a mitigação cada vez difícil. A chegada de um novo El Niño, prevista para breve, pode implicar inundações em alguns pontos do país, assim como estiagem em outros, demandando políticas públicas eficientes, com investimentos de peso para enfrentar situações adversas, inclusive com obras estratégicas, o que implica envolver os orçamentos dos entes federados nessa questão primordial.

Para alguns especialistas, esse tema vem sendo negligenciado no país. Foi nesse sentido a intervenção de vários painelistas no fórum “O que esperar do El Niño”, realizado nesta terça-feira, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Para a professora do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renata Libonati, que também integra o Comitê de Especialistas em Monitoramento Climático da Organização Meteorológica Mundial (OMM), as 50 mil mortes motivadas por ondas de calor entre os anos 2000 e 2020 deveriam receber uma atenção ainda maior das autoridades, já que são num montante 20 vezes maior do que o número de mortes por deslizamentos de terra no mesmo período. Por sua vez, José Marengo, representante do Sistema de Alerta e Visualização de Áreas de Risco (Cemaden), alertou para o fato de que o fenômeno ultrapassa o aquecimento das águas marinhas, podendo ter os seus efeitos do fenômeno indo além do campo meteorológico e impactando na produção de alimentos, no transporte, no fornecimento de energia e na economia como um todo. O conferencista Paulo Artaxo destacou que não estamos preparados para novos eventos trágicos, tais como os que ocorreram em 2024, com grande incidência no Rio Grande do Sul.

Sem dúvida, estamos diante de um impasse gigante que envolve desde as pequenas comunidades até acordos globais. E é urgente estabelecer salvaguardas para as populações mais carentes, sempre as mais prejudicadas. O calor extremo é um fator reconhecido de instabilização da saúde individual e coletiva. O Brasil, como uma das maiores economias do planeta, pode e deve capitanear a luta pelo equilíbrio socioambiental.