Editorial

Cautela do governo brasileiro é indispensável neste momento

Administração federal evita retaliações impensadas contra os Estados Unidos para proteger economia e consumidores do País

Fez bem o governo federal em acautelar-se, até agora, evitando a adoção de medidas retaliatórias impensadas contra os Estados Unidos em razão da adoção de novas tarifas contra nosso país. Mesmo que justas e reivindicadas por amplos setores em função da preservação da soberania nacional ou de compensação protecionista de mercados, retaliações impensadas podem acabar por causar na economia brasileira os mesmos efeitos deletérios que empresas e consumidores norte-americanos apontam que estão enfrentando desde que atual onda de aumentos extravagantes da tributação de importações começou. Adotados sob diversos pretextos anunciados ou reservados pela administração do presidente Donald Trump, sejam de âmbito protecionista ou meramente político, os aumentos de tarifas não parecem estar beneficiando os mercados norte-americanos com mais crescimento ou redução do desemprego na escala prometida pela administração. Nas gôndolas e nas empresas, contudo, efeitos como preços elevados ou diminuição acentuada de opções de fornecimento já são sentidos em maior ou menor grau.

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Assim, a ser observado o que acontece no mercado de consumo dos EUA, como é apontado até mesmo por políticos e economistas de diversas vertentes, não há razão para punir empresas e consumidores brasileiros com medidas semelhantes. Consumidores e empresas brasileiras não precisam de mais impostos. Eventuais e pontuais intervenções neste sentido devem ser planejadas e adotadas exclusivamente em face da proteção dos mercados e consumidores brasileiros. Certamente há razões de sobra, repita-se, para uma reação justa, mas deve-se evitar que os mercados brasileiros sejam duplamente penalizados por ações de autoridades estrangeiras e das nossas próprias.

É de se reconhecer que não colabora em nada para um ambiente de sensatez nesta questão o anúncio desta quinta-feira da administração norte-americana sobre novas tarifas, desta vez contra mais de meia centena de nações, sob a acusação genérica de falhas em coibir ingresso no mercado de produtos vinculados a trabalho forçado. Os brasileiros não desconhecem os esforços do poder público e da sociedade, em âmbito nacional e em fóruns internacionais, no combate à esta chaga. Sabe-se que a nova tarifa é a alternativa encontrada pela administração Trump para substituir outra, recentemente rejeitada por instâncias judiciais do próprio país do Norte. Talvez chegue a hora em que reações sejam inevitáveis. Espera-se, contudo, que elas sejam pensadas pondo-se na balança os interesses dos trabalhadores, empresários e consumidores brasileiros, de tal forma que evitemos, cá, as dificuldades impostas ao mercado que o governo dos EUA diz proteger.