Existem coisas e situações nas quais os avanços conquistados mostram que é preciso avançar ainda mais, que tudo o que se melhorou ainda não é satisfatório porque, ainda que em menor proporção, o problema continuará existindo e afetando a vida de milhões de pessoas. Ou seja, são casos em que as estatísticas, no lugar de gerar uma satisfação total, tornam-na parcial e evidenciam que, se muito se fez, muito ainda resta por fazer para atingir um equacionamento desejado. Em tais ocorrências, somente fazer mais não é suficiente, é preciso fazer tudo o que deve ser feito. Vamos exemplificar.
Citemos o combate ao analfabetismo. Na década de 50 do século passado, mais da metade da população nacional era analfabeta, num contingente que girava em torno de 61 milhões de brasileiros. Atualmente, temos um percentual de 5,3% nessa condição, o que corresponde a 9,1 milhões de pessoas nessa condição. Melhoramos? Sim. Precisamos continuar melhorando? A resposta também é sim, na busca da erradicação dessa chaga indesejada. Fazendo uma nova referência, vamos focar na situação da violência doméstica. Se considerarmos o mesmo período, veremos que agressões a mulheres e infantes eram, em décadas anteriores, como a de 50, tratadas como questão privada. Todavia, a evolução levou à criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, e à Lei Maria da Penha, em 2006. Ambas as legislações se mostraram eficientes e necessárias e mostraram resultados, a ponto de servir de base para legislações mais modernas. Resolveram tudo o que tipificaram? Não, mas mostraram a necessidade de continuar criminalizando e punindo condutas, como hoje se vê com o feminicídio. Um outro ponto, mais recente, diz respeito à meritória redução que teve o país em relação à mortalidade infantil. Conseguimos reduzir para a menor média histórica, de acordo com o Unicef. Na década de 1990, eram 63 mortes antes do quinto ano de vida para cada mil nascimentos. Chegamos, em 2024, a 14,2 mortes por mil. Podemos comemorar? Sim, mas buscando baixar para zero esses óbitos.
Na medida em que a ciência evolui, vamos ganhando sobrevida em meio a uma série de adversidades que precisam ser superadas, como no caso de doenças. Quaisquer vitórias são relevantes, mas elas devem impulsionar novos desafios para que nossos indicadores socioeconômicos reflitam uma nação mais igualitária, mais próspera e mais inclusiva.