Editorial

Memórias de uma tragédia sem igual

Todo esse panorama adverso afetou profundamente a vida dos gaúchos, com grande parte correndo risco de vida e perdendo seu parco patrimônio, notadamente suas residências e até seus locais de trabalho.

Ao completar um ano da maior tragédia da história do RS, em abril e maio de 2024, que foi precedida de outras cheias devastadoras no ano anterior, como a de setembro de 2023, os gaúchos continuam em sobressalto, curando feridas e buscando retomar seu cotidiano tão próximo quanto da perdida normalidade. Não é para menos. Foram em torno de 480 municípios atingidos de um total de 497, 25 desaparecidos, 184 óbitos confirmados, quase mil feridos. As perdas financeiras para o Estado foram contabilizadas em cerca de R$ 60 bilhões, com reflexos na agropecuária, indústria, comércio e serviços. Entre as cidades e as regiões impactadas estão Pelotas, Rio Grande, São Lourenço do Sul, além de diversas cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre e do Vale do Taquari.

Todo esse panorama adverso afetou profundamente a vida dos gaúchos, com grande parte correndo risco de vida e perdendo seu parco patrimônio, notadamente suas residências e até seus locais de trabalho. Isso foi amenizado pela onda de solidariedade que tomou conta do país de norte a sul, com ajuda de itens variados, desde alimentos até utensílios para uso doméstico, incluindo com destaque o trabalho voluntário, não apenas na reconstrução de moradias, mas, principalmente, no abnegado esforço de salvar vidas, como aconteceu incontáveis vezes, com a coragem dos voluntários que se arriscaram para resgatar pessoas ameaçadas de morte. A generosidade que moveu milhares de desconhecidos para ajudar desconhecidos necessitados já é uma das páginas mais comoventes da história recente do país, sem esquecer familiares e amigos envolvidos nesse pacto pela sobrevivência.

Agora, em meio a um balanço de tudo o que aconteceu, resta incrementar as ações de reconstrução e de prevenção. Entre as medidas, há que se revisar as políticas de ocupação dos solos, aportes para a reconstrução dos municípios, monitoramento dos eventos climáticos, recomposição da mata ciliar dos cursos de água, entre outras. A contenção também precisa ser melhorada, para evitar que o transbordamento dos rios se dê sem qualquer espécie de controle. Um ano depois, um conjunto de medidas foi implementado, mas muito resta por fazer para evitar eventos semelhantes no futuro.