Editorial

No tabuleiro mundial, as apostas do presidente Donald Trump

Essa tática de encontrar adversários longe de casa para ativar os brios nacionais não é nova.

Por ser a maior potência mundial, tudo o que ocorre nos Estados Unidos tem repercussão internacional e influencia a geopolítica no mundo todo. Esse panorama interno, de grande complexidade, foi muito bem captado e exposto pelo colunista Jurandir Soares em sua coluna na edição do Correio do Povo deste sábado. Vivendo uma crise doméstica, inclusive com abalo de sua popularidade, o que se evidencia com derrotas eleitorais, como a que se viu na disputa pela icônica prefeitura de Nova Iorque, Donald Trump tem feito apostas arriscadas no cenário externo, sofrendo reveses e tensionando as relações multilaterais.

Na visão do articulista, Trump busca distrair a opinião pública. Trata-se de um juízo verossímil, já que diversos setores da economia norte-americana já sentem os efeitos de uma queda de braço entre democratas e republicanos por conta do shutdown, que é uma paralisação parcial do governo federal causada pela não aprovação do orçamento pelo Congresso. Com isso, ficam afetados serviços básicos como controle aéreo, emissão de documentos, proteção de parques nacionais, programas sociais e agências reguladoras. Enquanto isso, a par de, aparentemente, ter arrefecido seus esforços para concluir um armistício entre Rússia e Ucrânia, o presidente republicano descobre novos inimigos nas águas caribenhas e no Pacífico Leste, próximo à Venezuela. Dessa forma, ele pode manter sua retórica de uma gestão de força enquanto tem pela frente um desfecho ainda inconcluso no âmbito de seu mandato, de cujo sucesso depende seu partido nas eleições legislativas do ano que vem.

Essa tática de encontrar adversários longe de casa para fortalecer os brios nacionais não é nova e Trump a reedita num momento em que sua aprovação se mostra em queda. Os tarifaços também parecem obedecer a essa lógica. Todavia, cabe lembrar, parafraseando o poeta barroco Gregório de Matos Guerra (1636-1696), que não se pode governar o mundo inteiro sem primeiro ter o mando de sua própria cabana.