Editorial

O descompasso no processo de adoção

Muito desse descompasso se deve ao fato de que os adotantes procuram por perfis específicos de menores, estabelecendo critérios que divergem dos infantes cadastrados para adoção.

Os números, em uma análise superficial, podem causar espécie no tocante à adoção. Ao todo, cerca de 33 mil crianças e adolescentes estão em abrigos ou instituições de acolhimento no Brasil, sendo que apenas em torno de 5.200 estão legalmente aptos para serem adotados. Para este montante, existem mais de 42 mil pretendentes habilitados no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), o que representa quase oito vezes mais pretendentes que crianças disponíveis. Contudo, algumas variáveis dificultam que essa equação seja devidamente resolvida.

Muito desse descompasso se deve ao fato de que os adotantes procuram por perfis específicos de menores, estabelecendo critérios como infantes de até 4 anos, sem irmãos e sem deficiências. Todavia, a maioria dos possíveis adotados tem mais de sete anos, integra um grupo de irmãos e apresenta alguma deficiência ou algum óbice de saúde. Dessa forma, nota-se que uma visão preconcebida sobre um perfil ideal impede que as famílias possam estabelecer uma relação afetiva com outras crianças fora desse padrão idealizado. São oportunidades perdidas de um convívio que pode ser muito produtivo e enriquecedor para todas as partes. Para buscar realizar uma aproximação que possa romper com critérios rígidos, diversas entidades e órgãos públicos relacionados com esses procedimentos se valem de novas ferramentas que permitam abrir canais para que adotantes conheçam improváveis adotados e, assim, estabeleçam com eles uma ligação inicial que conduza a um futuro estreitamento de laços afetivos visando a uma adoção legal. Um exemplo dessas ações é o projeto do Tribunal do Rio Grande do Sul (TJRS), que utiliza um aplicativo de fotos e de imagens que pode ser consultado por pessoas cadastradas.

Esse panorama de desequilíbrio nas adoções precisa mudar, para o bem das famílias e dos menores que esperam um lar para amarem e serem amados. Adotar é um ato de amor e de generosidade que precisa ser incentivado pelo bem de todos os envolvidos. A cada vez que os corações se abrem para novas perspectivas, para além de uma ideia prefixada, como é contumaz em adoções, ganham todos, famílias e coletividade