Editorial

O endividamento familiar como fator de apreensão na economia

Os altos níveis de inadimplência atuais comprometem o futuro econômico do país.

Para encontrar o caminho do crescimento e prosseguir nele, o país precisa obter ferramentas para equacionar minimamente a questão do endividamento familiar. A massa salarial está sendo muito comprometida com ônus que derivam dos juros altos, fazendo uma transferência de renda para o segmento financeiro. No curto, médio e longo prazos, retira, do montante que poderia constituir receitas das empresas, valores necessários para um reforço no caixa, próprios para novos investimentos, num ciclo benéfico para toda a economia. O cenário mostra-se complexo e nebuloso, pouco afeito a soluções fáceis.

De acordo com um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,2% das famílias brasileiras indicaram possuir algum tipo de dívida em fevereiro de 2026. Esse é o maior índice de toda a série histórica, que teve início em 2010. Esse panorama se evidencia ainda mais grave quando se constata que 49,8% da renda anual das famílias está comprometida com dívidas, o maior nível em duas décadas; que há 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro de 2026, conforme dados da Serasa, representando um aumento de 22,7 milhões em dez anos; que temos uma taxa de inadimplência que, em dezembro de 2025, ficou em 6,9%; e que os juros médios estão em 15% ao ano, dificultando a renegociação e a quitação de débitos. E as informações que causam apreensão não param por aí: segundo o Banco Central, em anúncio divulgado nesta segunda-feira, os juros do cartão de crédito pesaram mais para famílias em fevereiro. Foi destaque em fevereiro o avanço de 11,4 p.p. na taxa do crédito rotativo, atingindo 435,9% ao ano. Essa modalidade, que é de fácil contratação e de difícil adimplência, é uma das mais caras disponibilizadas no mercado.

Nesse contexto, há que se buscar mecanismos eficientes para enfrentar essa realidade. Exemplos são a troca de dívidas mais caras por outras de menor valor, ofertando taxas de juros mais atraentes. Também não é despiciendo que se trabalhem conteúdos de educação financeira para que a atual geração e as emergentes possam valorizar seu dinheiro, com noções de custo e de benefício em compras e contratações. Reabilitar consumidores deve ser uma prioridade para uma economia que tem um grande potencial de atender sua população e prospectar dividendos em nível global.