Nesta época do ano, voluntários e segmentos ligados ao trabalho de assistência social costumam arrecadar alimentos para propiciar que famílias carentes possam desfrutar de uma ceia digna de Natal e até de Ano-Novo. Trata-se de ações positivas que merecem o respaldo da sociedade, do poder público e que devem ser incentivadas sempre como forma de dar a essas pessoas a oportunidade de uma confraternização familiar com alimentos na mesa.
Esse período deve servir de reflexão para a necessidade de que esses segmentos vulneráveis em situação famélica sejam assistidos ao longo de todo o ano, já que a fome costuma ser uma chaga sempre presente, tanto no Brasil quanto no mundo. De acordo com levantamentos nacionais e internacionais, como do IBGE e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 8,7 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar grave, com fome, e cerca de 20 milhões em insegurança alimentar moderada ou grave no território nacional. No mundo, a estimativa é que haja entre 690 e 735 milhões com fome crônica. São mais de 250 milhões com falta aguda de alimentação, sendo muitos desse montante em regiões de conflito ou afetadas por eventos climáticos extremos. A par disso, contudo, ocorrem desperdícios alimentares que poderiam equacionar ou amenizar esse quadro crítico. No Brasil, estudos dão conta de que há o desperdício de aproximadamente 46 milhões de toneladas de alimentos por ano, uma fatia de 30% de toda a produção nacional. Num ranking mundial, o país ocupa o 10º lugar entre as nações que mais desperdiçam alimentos. E, por isso não ser uma realidade isolada, no mundo houve 1,05 bilhão de toneladas de resíduos alimentares descartados sem aproveitamento em 2022, volume que seria suficiente para atender centenas de milhões de famintos.
Nesse contexto adverso, que compromete a cidadania de um grande contingente populacional, bem como fragiliza a própria democracia, cabe elaborar políticas públicas e convênios com a iniciativa privada, bem como com o chamado Terceiro Setor, para realizar um enfrentamento com esse mal que assola a coletividade. A humanidade tem avançado ao longo da história, mas ainda tem alguns passivos para resolver e a fome é um deles, tão danoso quanto persistente.