Por muitas décadas, os gaúchos viveram coligindo histórias e memórias da enchente de 1941, com os porto-alegrenses munidos de registros da época, que geraram documentários, matérias e fotos da imprensa, com destaque para o Correio do Povo, o qual realizou reportagens icônicas sobre o avanço das águas e o impacto para a população. O nível do Guaíba atingiu a marca de 4,76 metros no Cais Mauá e cerca de 70 mil moradores da Capital ficaram desabrigados. Foi por conta desse evento que se decidiu construir a contenção do Muro da Mauá, com um sistema de diques, uma complexa obra de engenharia dos nossos antepassados para prevenir cheias futuras.
Por muitos anos, não se acreditou que as águas pudessem voltar a ser uma ameaça efetiva para a coletividade. Todavia, em 2023, começaram as primeiras evidências de que as coisas talvez pudessem se configurar de maneira diferente. A enchente de julho de 2023 foi o início de um ciclo devastador. Foram 27 mortes no Estado e uma em Santa Catarina, com destelhamentos, quedas de árvores e pontes destruídas. O Aeroporto Salgado Filho teve seu funcionamento alterado, com voos cancelados e atrasos. A causa foi uma formação de ciclone extratropical, com ventos intensos e precipitação extrema. Em setembro de 2023, novos sinistros. Foram contabilizadas 54 mortes e milhares de desabrigados. O Rio Taquari chegou a 29,62 metros, beirando o recorde de 1941. Municípios como Muçum, Roca Sales e Lajeado sofreram intensa devastação. Tudo foi causado por um ciclone extratropical e por chuvas concentradas em curto período. Isso seria uma sinalização do que estava por vir. As cheias de abril e maio de 2024 foram de deixar “terra arrasada”. Ao todo, atingiram 478 dos 497 municípios gaúchos, com mais de 2,4 milhões de pessoas afetadas, 184 mortes confirmadas e 25 desaparecidos. Nesse entremeio, houve recordes históricos de chuva, com 213,6 mm em Santa Maria e 266,2 mm em Caxias do Sul em apenas um dia. Os danos foram atribuídos às chuvas intensas e persistentes, agravadas por sistemas de baixa pressão e um solo já saturado.
Nesse contexto, e enquanto adentramos setembro, a coletividade quer acreditar que as medidas cabíveis de prevenção estejam em curso. Já se vão lá dois anos de uma das tragédias marcantes e ainda não há uma segurança de que estejamos minimamente protegidos, sem depender de uma expectativa otimista que a natureza não nos pode avalizar.