Com a proximidade da temporada dos vestibulares e com o ingresso de novos acadêmicos nas universidades públicas e privadas do país, uma preocupação exsurge no âmbito das instituições, das autoridades e das famílias. Trata-se da questão dos trotes violentos, a qual, não obstante alguns avanços nos últimos anos, remanesce como algo a ser equacionado de forma a garantir a integridade física e psicológica dos calouros.
Não é de hoje que episódios lamentáveis permeiam esse rito de passagem na vida escolar dos nossos estudantes. Em 1999, o calouro Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado durante um trote na piscina da Faculdade de Medicina da USP. Em 2014, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), alunos denunciaram que foram obrigados a ingerir bebidas alcoólicas em excesso e a participar de atividades humilhantes. Já na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em vários anos, surgiram denúncias de trotes com conotação sexual, racista ou homofóbica, o que ocasionou investigações e punições. Ocorrências como essas fizeram com que as universidades passassem a incentivar trotes solidários, que, geralmente, promovem a aproximação entre veteranos e ingressantes por meio de atividades que beneficiam a comunidade, evitando práticas que levem a constrangimentos, violência ou exposição indevida e fazendo com que as atividades de recepção se traduzam em ações concretas de solidariedade. Exemplos são arrecadação de alimentos, roupas, brinquedos ou livros, doação de sangue, mutirões comunitários, limpeza de equipamentos públicos, apoio a instituições beneficentes, oficinas para o público infantojuvenil, palestras sobre cidadania e inclusão, etc.
Aos poucos, diversas camadas sociais vão remodelando suas condutas como forma de adequá-las aos preceitos da empatia e das virtudes necessárias para o advento de um bem comum do qual não se pode prescindir, sob pena de retrocedermos no tempo. Isso também está ocorrendo com os trotes num trabalho que não deve cessar até que certos costumes degradantes sejam definitivamente extintos do nosso cotidiano.