Tomar o poder com o pretexto de uma causa nobre, a favor do povo, e depois impor uma ditadura ou um regime opressivo não é exatamente uma novidade na América Latina. Isso quando a assunção ao governo não é feita de maneira caricata, como ocorreu no golpe de estado na Bolívia, em 1864, quando o general Mariano Melgarejo removeu o governante da época estando em completo estado de embriaguez.
A recorrência de fatos assim chegou, inclusive, a ensejar uma corrente literária com os chamados “romances de ditadores”, da qual fizeram parte escritores brilhantes, como o colombiano Gabriel García Márquez, o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, o paraguaio Augusto Roa Bastos e o cubano Alejo Carpentier. Sobre caudilhos e ditadores, nossa América de língua românica fornece um profícuo material ao longo dos tempos.
Agora, estamos às voltas com mais um ditador candidato a personagem à feição para nossos autores de uma ficção marcada pela verossimilhança. O presidente Daniel Ortega, um dos líderes do movimento sandinista na derrubada de Anastasio Somoza, está no comando da Nicarágua desde 2007 e agora deu uma declaração bombástica dizendo que não mais haverá a eleição nacional prevista para o ano que vem.
Ele vem se reelegendo de forma duvidosa sucessivamente e, no pleito anterior, em 2021, perseguiu dissidentes, prendeu opositores e criminalizou o debate político, agindo como um autêntico déspota. Todas as mobilizações que lhes são contrárias são reprimidas com intimidação e violência. No seu bojo de medidas surreais, nomeou sua esposa como copresidenta, mostrando que não conhece limites em sua tirania. Sua manutenção na chefia de uma nação tão estratégica é um fator de instabilidade na geopolítica do continente. É por isso que as nações civilizadas precisam colocar em sua pauta os meios de prestar ajuda para uma coletividade indefesa e ávida da volta de um sistema democrático. Nesse diapasão, a diplomacia exerce um papel fundamental.
Não é de hoje que as democracias enfrentam problemas, seja de representatividade, seja de isonomia no tratamento com seus cidadãos. Não raro, são mais formais do que efetivas. Contudo, ainda é o melhor caminho que se encontrou para agrupar e reger as sociedades. Isso está sendo uma máxima vivenciada pelos nicaraguenses, que merecem voltar a viver dentro de um ordenamento jurídico que lhes devolva seus direitos básicos e sua dignidade como população coesa e dona do seu destino.