Um levantamento, realizado pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com apoio da Agência Nacional de Águas (ANA), indica que o RS terá mais precipitação pluvial e os eventos extremos podem se tornar cinco vezes mais frequentes até 2100, conforme o estudo. Essa conclusão exige uma reflexão sobre o que podemos e devemos fazer para mitigar essa realidade.
A enchente de 2024 foi surpreendente em vários sentidos. Atingiu o nível máximo de 5,37 metros no Cais Mauá, em Porto Alegre, superando o recorde anterior de 1941, que era de 4,76 metros. Foram atingidos cerca de 90% dos municípios do Estado, com dezenas de mortes, desaparecidos, perdas patrimoniais e de arrecadação, além dos traumas deixados pelas cheias. Até hoje, as sequelas estão presentes e muitos tentam retomar a vida que nunca mais foi a mesma. Diante desse cenário, a pergunta sobre o que fazer está sempre presente. As medidas são de curto, médio e longo prazos, mas exigem respostas do poder público nas três esferas, federal, estadual e municipal. Elas envolvem desassoreamentos, recomposição florestal, conservação da mata ciliar, funcionamento pleno das casas de bombas, limpeza das bocas de lobo. Todavia, essas intervenções mais urgentes talvez não sejam estratégicas nem suficientes para dar conta das tragédias anunciadas por esse documento produzido pelos especialistas da Ufrgs. Urge que haja uma prevenção maior ainda do que aquela que está se vislumbrando nas ações dos entes federados, pois os elementos colhidos até agora apontam para iniciativas inadiáveis diante dos riscos iminentes da repetição dos sinistros.
Cabe lembrar que é preciso incorporar o conceito de cidades-esponja, criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu. As águas dos lugares de enchentes não devem ser levadas para os cursos de água porque apenas transferem o problema. É preciso criar áreas de absorção nesse trajeto. Todavia, para implementar esses projetos é preciso que haja dotações orçamentárias significativas e um planejamento consistente. As futuras gerações não podem ser penalizadas pelas omissões relacionadas com o que deixamos de fazer como dever de casa.