A polarização deixada pelo processo eleitoral, não raro, pode constituir um óbice para que uma passagem de governo, dentro da normalidade democrática de uma alternância no poder, determinada pelo voto popular, não ocorra com a civilidade necessária. Não é incomum aquela imagem que corre no imaginário popular de um governante saindo do gabinete, esvaziando as gavetas, sem nenhum tipo de comunicação com seu sucessor. Nem sempre quem sai faz isso com a urbanidade compatível com a liturgia do cargo e nem sempre quem entra o faz de forma adequada. Nesse contexto, não há a devida consideração com o interesse público envolvido nessa situação.
Contudo, o que ocorre no Rio Grande do Sul é diametralmente diferente. Os dois governantes, Eduardo Leite e Zucco, pautam suas equipes, a que entra e a que sai, por orientações que envolvem diálogos e transparência. Um exemplo está no encontro entre ambos para tratar de itens do programa de reconstrução pós-enchentes e resiliência climática do Estado, o Plano Rio Grande, visando a evitar eventuais interrupções nos procedimentos necessários para levar adiante o projeto. O debate também gira em torno da criação de uma autarquia de gestão das águas do Rio Grande do Sul que sirva de autoridade gestora nessa área. Outro ponto de contato entre os dois diz respeito à maneira de tratar a dívida do RS com a União, algo que exige negociações complexas sobre a melhor forma de defender as finanças do Estado, pois o Funrigs é vital para haver recursos destinados à reconstrução da economia e da infraestrutura gaúchas. O nível das discussões e da busca de soluções entre as equipes de transição no âmbito da substituição no cargo de governador mostra que estamos muito bem servidos de homens públicos no caso em tela.
O RS tem uma tradição de mandatários de grande envergadura, como Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas e outros mais recentes, representantes de uma estirpe de honradez e eficiência. É o que estamos vendo atualmente na sucessão estadual. Esse comprometimento e essa polidez no trato com o erário e com a coisa pública podem e devem servir de exemplo para outras situações semelhantes numa nação marcada por pontos de vista muito divergentes sobre o futuro do país.