Editorial

Em uma sociedade com muitas disparidades socioeconômicas, alguns contingentes acabam sentindo mais que outros os percalços da luta pela sobrevivência. Uma das consequências desses desajustes sociais acaba sendo o aumento do número de pessoas em situação de rua, com uma fragilidade exposta que, na verdade, é reveladora de fissuras no tecido social da coletividade e um óbice ao exercício pleno da cidadania por parte de quem se vê nessa condição por motivos imperiosos que precisam ser diagnosticados e combatidos devidamente.

De acordo com um levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais, já são mais de 365 mil pessoas morando nas vias públicas do país. No Rio Grande do Sul, os dados indicam um montante em torno de 8 mil na Grande Porto Alegre e de 2,4 mil na Capital. Trata-se de uma questão de vulto a ser equacionada por meio da atuação do poder público e da sociedade civil. As razões para esse fenômeno são as mais variadas, como desemprego e pobreza acentuada, déficits habitacionais e ausência de políticas efetivas para moradia, incidência de crises de saúde mental e falta de suporte adequado, dependência química e deficiência das redes de apoio, rompimento de laços familiares e violência doméstica contra idosos, infantes e mulheres. A forma de incidir sobre esse contexto tem de levar em conta a necessidade de apresentar propostas para mitigar esse quadro de extrema gravidade, com medidas que envolvam acolhimento institucional, com abrigos, casas de passagem e centros de referência; políticas de moradia, com programas de aluguel temporário e habitação popular; assistência social integrada, com acesso à saúde, educação e benefícios sociais; reinserção laboral, com qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho; e prevenção, com apoio às famílias em risco para evitar que fiquem desabrigadas.

O Brasil é um país em que seus habitantes são reconhecidos por sua solidariedade e empatia. Quem se encontra premido pelas circunstâncias espera encontrar respaldo e não pode ser envolvido pela invisibilidade e pela indiferença. É hora de se cobrar das autoridades uma solução para esse ponto crucial e de estender a mão para quem só espera uma oportunidade de reagir e de voltar a viver com dignidade.