Éde causar espécie que, em plena época de uma informatização crescente, com redes sociais e outras ferramentas que impulsionam a disseminação das informações, ainda haja oportunidade para os meliantes aplicarem velhos ardis para ludibriar suas vítimas, como é o caso do conto do bilhete premiado. E mais: surpreende que as cifras amealhadas ilicitamente cheguem a montantes significativos, bem como o fato de que, em meio a uma série de estelionatos praticados com um refinamento advindo das novas tecnologias, a exemplo da clonagem de cartões de crédito, ainda haja espaço para um delito que vem desde os tempos dos nossos bisavós.
Mas não se culpem os vitimados por essa conduta. A trama é muito bem urdida. Em geral, com algumas variações, o enredo envolve uma pessoa supostamente de origem humilde e outra que se disfarça de passante para entrar na cena. Quem vai ser o lesado entra na história demandado pelo primeiro delinquente, que finge ser do Interior, que está buscando informações para deslocamentos e que tem um bilhete que pode estar premiado. O segundo agente finge confirmar, num jornal ou ligando para uma lotérica, que, sim, o bilhete está premiado. Só que o seu possuidor afirma não ter tempo para retirar o dinheiro e propõe que os outros dois retirem o prêmio e “dividam” o valor mediante algum pagamento, que pode ser em espécie, joias ou objetos de valor. É aí que o golpe tem seu clímax. A vítima, então, indo ao banco ou a casa ou repassando numerários na hora, faz a transferência de bens e os estelionatários somem na sequência.
Esse tipo de crime continua tão incidente que levou a Polícia Civil a montar uma força-tarefa para combatê-lo. Trata-se da Operação Falsa Fortuna, que envolveu delegacias da Capital e do interior do Rio Grande do Sul. O prejuízo chega a cerca de meio milhão de reais. Durante a ação, foram presas quatro pessoas preventivamente e apreendidos documentos, celulares e um veículo. Sem dúvida, chama a atenção o fato de que esse tipo de falcatrua, que já poderia estar erradicada ou minorada, continue a causar danos expressivos no bolso de parcela da população.