Problema grave na maioria das capitais brasileiras, a destinação inadequada de resíduos sólidos urbanos é um tema frequente na história de Porto Alegre há mais de 200 anos. Em 1820, por exemplo, quando Auguste de Saint-Hilaire visitou a cidade, então sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande, ficou registrado nos diários do naturalista o “grave inconveniente de serem atiradas à rua todas as imundícies, tornando-as de uma extrema sujeira”. O sábio francês anota ainda que os terrenos baldios, as encruzilhadas e, principalmente, às margens do Guaíba, o manancial de água potável utilizado pela população, eram os locais preferenciais para despejo das residências.
As observações de Saint-Hilaire são anteriores ao momento em que a limpeza urbana deixou de ser uma preocupação privada para se constituir em serviço público, o que ocorreu em 1829, sem alterar significativamente o estado das coisas. A natureza, incluindo as águas do Guaíba, permaneceu como destino do lixo.
Nos dias de hoje, apesar dos serviços de coleta mantidos pela prefeitura, basta acompanhar os resultados de ações do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) para verificar que ainda há muito a avançar para assegurar o descarte adequado dos materiais. Móveis, pneus, podas de árvores, lixo doméstico, resíduos de construção civil e até mesmo restos de animais se amontoam em praças, terrenos, ao longo da orla e outros espaços a céu aberto, contribuindo para a proliferação de pragas, doenças e prejuízos ao meio ambiente, em uma relação quase simbiótica. Vale ressaltar que, como indica o próprio DMLU, boa parte desses locais tendem a se perpetuar como lixões mesmo com a retirada regular de dezenas de toneladas de detritos.
Ainda que a responsabilidade da coleta seja do poder público, se faz necessário, diante da permanência do hábito popular de se livrar do rejeito em qualquer lugar e a qualquer momento, compartilhar a busca pela almejada solução do problema. O primeiro passo, certamente, seria a reeducação e conscientização da população.