Existem problemas que, olhando para seus dados, dão a nítida impressão de que não deveriam ser tão difíceis de serem equacionados. Um destes casos diz respeito ao número de crianças colocadas para adoção ou vivendo em orfanatos. Para um país com mais de 212 milhões de habitantes, o montante de infantes nessa situação, que é de 14.374, não teria o condão numérico de se tornar um tema tão adverso e espinhoso, com milhares desses menores passando uma fase tão importante da vida sem ter um lar ou uma família. Contudo, analisando-se mais de perto a questão, surgem algumas respostas que trazem ainda mais desafios para o poder público e para a coletividade.
Muitos dos que trabalham na área explicam que boa parte dessa disparidade se deve ao fato de que muitos interessados em adotar se cadastram na fila da adoção expondo exigências difíceis de serem atendidas no tocante ao perfil dos adotandos. Em geral, querem crianças de até três anos, descartam adotar irmãos, bem como não demonstram interesse naquelas que tenham algum tipo de enfermidade ou que demandem tratamento médico por alguma enfermidade crônica.
A sociedade brasileira precisa cobrar dos governantes e dos legisladores medidas efetivas para reverter uma realidade de abandono e de indiferença, a qual não diz respeito apenas a crianças e adolescentes. Outros segmentos vulneráveis igualmente são desfavorecidos, como é o caso de idosos em asilos, que somam hoje um total de mais de 160 mil pessoas, ou 0,5% da população com mais de 60 anos no país (32,1 milhões), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O grau de civilidade de uma nação democrática pode ser medida pelo nível de atenção dispensada aos seus grupos de hipossuficientes. Criar mais programas de apoio e suporte para dar mais oportunidades e segurança aos que mais precisam, ampliando a rede protetiva, além de dar efetividade aos comandos da Constituição e do nosso ordenamento jurídico, mostra-se em consonância com a índole do nosso povo.