Direto ao Ponto

Os vãos da memória

Havia amanheceres que eram pinturas e quadros abandonados pendurados em casas vazias, taperadas de lembranças.

São João
São João Foto : Leonid Streliaev / especial / cp

Aqui na frente de casa tem uma escolinha infantil que todos os anos, em junho, fecha a rua e realiza uma linda festa de São João. Alguns vizinhos reclamam da música alta, do banzé, da rua interditada, dos transtornos. Nunca reclamei, até porque vejo a alegria no rosto das crianças fantasiadas, as danças e as brincadeiras. E também recordo minha infância humilde lá na Vila Rica, vivendo numa pequena chácara perto da cidade, servindo clientes em nosso bolicho beira de estrada, aprendendo a trabalhar desde guri, a ter responsabilidades, e a me divertir com coisas simples, pequenas atividades de lazer que nós mesmos fazíamos. Como as festinhas de São João, que nem lembro quem teve a ideia de fazer. Deve ter sido à noite, num fim de semana de frio lá na bodega, quando o pessoal da vizinhança – tropeiros, peões e changueiros — tomava uns goles e abria o pensamento.

Ficava imóvel, sempre, quando acendíamos a fogueira, bem embaixo, no pé, depois as chamas da lenha que tínhamos rebuscado pelos matos iam subindo, as taquareiras verdes começavam a estralar e, por fim, todo o esteio pegava fogo, as labaredas cresciam e, lá em riba, os pneus velhos davam aquele clarão que tanto esperávamos. Era o auge, momento único que sabíamos que ia demorar a ocorrer de novo. Era lindo o esplendor de luzes e cores e a gente ali, vendo tudo. Um sonho tanta luz em meio àquela escuridão. Nós, as crianças, vivíamos numa espécie de solidão escura, de informação e de conhecimento. A gente não sabia, ninguém perguntava, ninguém questionava. O bom era degustar os bolos, os doces e tomar quentão, além de escutar a gaita do seu Lara.

Era um tempo de rondas de noites longas e claras. O arvoredo, por vezes, se paramentava de luas e sombras, O sereno dava de beber à sede que trazíamos nos bolsos furados e as folhas caíam dos caules e amarelavam lentamente ao sol, perfilhando na terra seu infinito. Porque o cabelo na ponta da espiga é a palavra dos grãos e as revelações que dele ressoam. A gurizada era um sopro de coisas ressurgidas das pedras e do fundo da terra. Havia mistérios fisgados no silêncio. Olhares rendilhando desejos clarificados, amanhecidos, fincados no couro e no lombo suado dos pingos ainda redomões. Havia amanheceres que eram pinturas e quadros abandonados pendurados em casas vazias, taperadas de lembranças. O que éramos senão silhuetas de grãos que nunca amadurecem?

E agora estamos aqui, de novo, vendo as crianças dançando, brincando com balões, fazendo algazarras. Volto para lá, outra vez, para os vãos da memória, para as rocas de julho, sinto nas mãos as loncas correndo nos calos, os pedaços de tardes que ainda tenho, as pequenas luzes que permanecem acesas contra o triste ornato dos talheres de prata, no fundo dos espelhos quebrados. Vou e volto numa desforra tropeira de campeirito que assobia canções esquecidas. Busco o sarandeio das reminiscências no profundo da noite escura e mermada de silêncios. Uma tropa de fogueiras prontas para atacar, em formação, brandindo espadas em chicotes de fogo e luz, avançando nos sonhos e fantasias. Como um cão ferido, de olhos de sangue, farejo o mundo que me sobra e abro o ferrolho da minha saudade…

São João | Foto: Leonid Streliaev / especial / cp

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