Antes de chegar à Groenlândia, na sexta-feira, 28, o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, acusou a Dinamarca de não cuidar bem dos nativos da ilha. Estratégia muito clara: provocar uma animosidade maior dos ilhéus com Copenhague e, ao mesmo tempo, conquistar a simpatia deles, para uma possível incorporação da ilha aos EUA. Porém, Vance, seu acompanhante, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Mike Waltz, e os demais integrantes do governo que compunham a comitiva, como se dizia antigamente, “tomaram o bonde errado”.
Nenhum habitante da ilha quis receber a comitiva. E mais: divulgaram uma pesquisa cujo resultado aponta que 85% da população local é contra qualquer possibilidade de a ilha passar ao domínio norte-americano. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, denunciou mais uma vez a falta de respeito do governante estadunidense com um país que é tradicional parceiro e aliado na Otan. E lembrou mais uma vez que já existe uma base militar dos EUA na ilha e que seria só uma questão de conversa para ampliá-la.
ALIADO
Mas, se por um lado, Trump está se indispondo com um tradicional aliado, por outro, está recebendo um inesperado apoio daquele que passou a ser seu parceiro nos últimos tempos: o presidente russo Vladimir Putin. O qual aproveitou para reforçar uma teoria que Trump já divulgou. Disse que “as ambições das grandes potências fazem parte da atual realidade e que as demais nações têm que se acostumar a esta realidade”.
O curioso é que uma das preocupações de Trump, que ele usa para justificar a tomada da Groenlândia, é justamente com a crescente presença russa na região. Assim como da China. E Putin, teoricamente, se propõe a ajudar Trump na sua ambição.
RECLAMAÇÃO
Isto, no entanto, não evitou de Trump dar uma bronca no seu novo parceiro. Trump se disse muito irritado com as recusas de Putin para se avançar num processo de cessar-fogo na Ucrânia. Não se pode esquecer que uma das bandeiras do americano é acabar com aquela guerra. Prometeu, antes e depois das eleições, que conseguiria isto. Trump ameaçou impor tarifas a quem comprar o petróleo russo, caso não haja um avanço na negociação.
Isto, no entanto, é mais uma das ações dentro do “jeito Trump de negociar”. Amaciar e bater de frente fazem parte. Todavia, o que Trump quer é ir logo colhendo os frutos do acordo de término dos combates. Segundo revelou para o jornal Izvestia o magnata dos investimentos na Rússia, Kirill Dmitriev, já há um acordo, desenhado pelos americanos, de exploração de minérios estratégicos, como as terras raras que são usadas para a produção de baterias de carros, celulares e computadores. Ou seja, Trump já estancou o envio de dinheiro americano para a Ucrânia e agora se prepara para receber de volta o que foi enviado.
JOGO DUPLO
Putin, também como raposa velha, faz o jogo duplo. Ao mesmo em que diz que fará novas conversas com Trump, irá receber, nesta quarta-feira, 2, o chanceler da China, Wang Yi. Sabendo-se que hoje Trump tem na China o principal inimigo a combater. Enquanto Putin tem em Pequim o principal aliado, que, por sinal, evitou que as sanções econômicas impostas pelo Ocidente abalassem a economia russa.
Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, Putin segue aberto ao diálogo com Trump e que um encontro entre os líderes pode vir a ocorrer, assim como novas conversas ao telefone.
REELEIÇÃO
E dentro de sua característica de sempre surpreender com declarações bombásticas, Trump anunciou sua vontade de concorrer a um terceiro mandato, o que não é permitido pela constituição do EUA. Aliás, quando ele foi eleito para seu segundo mandato, se questionou muito se ele teria o direito de buscar uma reeleição. Isto porque é estabelecido que todo presidente que está no mandato tem direito a reeleição. Isto, porém, ele havia tentado quando concorreu, em 2020, com Joe Biden. Como perdeu, ficou com direito a concorrer a outro mandato. Mas, só um. Uma reeleição agora fere a Constituição norte-americana.
Mas o que parece é que Trump, com seu autoritarismo, está querendo imitar ditadores latino-americanos que alteram a Constituição para ter um terceiro ou quarto mandato. Não parece um bom exemplo para os EUA, um país que prima pela consolidação da sua democracia.