Era a noite de sábado, dia 4 de maio, quando a água começou a invadir os bairros Humaitá e Vila Farrapos. Já na madrugada do dia, por volta das 3h, a inundação avançou para dentro da casa em que a corretora Danielle Pagano, 42 anos, e o fotógrafo Alexandre de Abreu, 45, viviam com a filha Valentina, de 4 anos, no bairro Humaitá, zona Norte de Porto Alegre.
Até então, para eles, os alertas pareciam mais um episódio de alagamento como tantos outros já enfrentados na região. “O bairro sempre alagava, mas nunca nessa proporção”, recorda Abreu. A família havia recebido avisos de parentes para sair, porém, ainda assim, o casal decidiu aguardar. Segundo o fotógrafo, um pronunciamento público de autoridades da região contribuiu para a sensação de que a situação não fugiria do controle. “A gente não imaginava que ia tomar a proporção que tomou”, diz.
Quando a água da histórica enchente de 2024 chegou efetivamente à residência, já não havia saída fácil. “Era umas 3h da manhã. A gente tinha uma única chance para sair pela freeway, mas eu não sabia como estava do outro lado, se dava para atravessar. Ficar no meio do caminho com mulher, filho e cachorro? Decidi esperar”, relata.
A água não parou de subir e os três deixaram o bairro de barco. Nos dias seguintes, a enchente praticamente cobriu a moradia. Dois carros, móveis, roupas, brinquedos e documentos, tudo ficou para trás. “Perdemos tudo”, resume Danielle.
Eles só voltariam à residência 25 dias depois, depois que a água finalmente recuou. Antes disso, Abreu chegou a fazer um retorno solitário. Cerca de 15 dias após a enchente, entrou na área ainda alagada para recuperar equipamentos de trabalho. “Eu fui de barco até um ponto e depois caminhei com água no peito. Já não tinha voluntário, estava difícil conseguir barco. Eu precisava dos equipamentos para trabalhar, para tocar a vida”, conta.
Com medo de buracos e da falta de visibilidade na água parada, atravessou ruas inundadas até alcançar o imóvel. Recuperou câmeras e materiais profissionais. O restante, não. “A única coisa que a gente tirou de lá depois da enchente foi o fogão. Só. O resto ficou 25 dias embaixo de água podre. Não tinha o que salvar”, lembra.
Roupas, móveis, brinquedos da filha, lembranças de infância. “Tudo irreconhecível. Não tinha como recuperar”, diz. Danielle voltou apenas uma vez. “Eu nunca mais quis ir até lá. A gente bloqueou o que viveu na casa”, afirma a mulher.
A decisão seguinte foi definitiva: a família não voltaria a morar na Capital. O casal já possuía um imóvel na praia de Rainha do Mar, em Xangri-Lá, no Litoral Norte, desde 2020, utilizado para veraneio. A mudança permanente era uma possibilidade distante, planejada para o futuro, mas a enchente antecipou o plano. “Ali foi a certeza de que não voltaríamos mais”, afirma Abreu.
A casa precisou ser adaptada para moradia fixa, enquanto o imóvel em Porto Alegre foi vendido por meio do Compra Assistida. “A gente não olhou para trás. Moramos 11 anos lá, mas parece que não existiu. A decepção foi tão grande que bloqueamos tudo”, acrescenta o homem.
Hoje, vivendo no litoral, a famílias reconstrói a rotina. Danielle é corretora de imóveis e Abreu atua como fotógrafo, com foco no mercado imobiliário. Ambos já trabalhavam na área antes da enchente. “A gente estava mais estabilizado em Porto Alegre. Aqui ainda estamos nos estruturando, mas foi melhor do que imaginávamos”, diz ele.
Segurança e tempo
Se a perda foi abrupta, a decisão de permanecer no litoral se sustenta por outros motivos. Para Danielle, fatores como a segurança e o trânsito pesaram mais do que qualquer outro. “Em Porto Alegre, eu tinha que andar com o vidro do carro fechado, com preocupação o tempo todo. Para andar 5 quilômetros, levava meia hora no trânsito. Aqui faço um trajeto mais longo em sete, oito minutos e tu andas de carro com vidro aberto, com criança pelas ruas, vive tranquilo. Não ouve falar de assalto toda hora”, diz a mulher.
Apesar da boa adaptação, os dois garantem que ainda estão se acostumando com alguns fatores. No inverno, dizem sentir falta de opções culturais, eventos e grandes centros comerciais. “Mas hoje não são mais cidades fantasmas. Tem vida o ano todo no Litoral”, observa Abreu.
Na educação e na saúde, a avaliação também é positiva. Danielle cita escolas públicas com estrutura que, segundo ela, não encontrava na Capital. “Aqui as salas contam com ar-condicionado e refeitório organizado. Em Porto Alegre eu nem cogitava escola pública, mas aqui, na escola que nossa filha vai, a estrutura é ótima”, justifica.
O casal afirma que conhece outras famílias que fizeram o mesmo movimento, especialmente após a enchente. Como corretora, Danielle observa aumento na procura por imóveis por moradores da Região Metropolitana. “Desde a pandemia, muita gente aprendeu a trabalhar remotamente. Depois veio a enchente. E tem quem simplesmente queira qualidade de vida”, diz. Abreu complementa: “O que mais se escuta é que quem vem morar aqui não se vê mais voltando”, conclui.
Quatro mochilas
Em Canoas, a história de Lielle Campão Cruz, 39 anos, também começou com a água subindo até o teto. Ela morava no bairro Mato Grande com os filhos Miguel, 15, e Rafaela, 12. No dia da enchente, estava no hospital para uma cirurgia decorrente de um acidente que sofreu há alguns anos. “Eu saí às 5h da manhã. Estava tudo tranquilo”, recorda.
Os filhos ficaram em casa. Quando a água começou a subir, lembraram das orientações da mãe. “Eu sempre dizia onde estavam os documentos. Eles pegaram notebook, telefone, quatro mochilas e saíram com os cachorros”, conta.
A residência alugada foi completamente tomada pela água. Lielle só soube da dimensão do problema horas depois, já no hospital. Não voltou mais para a casa naquele dia. Passou pelo apartamento do pai, no Centro, que também começou a ser atingido. Depois, seguiu para a casa do irmão, no bairro Igara. Cerca de 20 dias depois, a família retornou para limpar o imóvel da amiga proprietária, mas não conseguiu salvar nada.
Inicialmente, os três permaneceram no apartamento do pai de Lielle até dezembro. Em outubro, quando ela começou a frequentar o Litoral Norte para “arejar a cabeça”, como descreve, reencontrou amigos próximos e ex-colegas que haviam se mudado. “Começamos a ter um outro olhar. Antes o litoral era sinônimo de férias, ali passou a ser casa”, ressalta.
Em dezembro de 2024, a família mudou-se definitivamente para Tramandaí. Mãe solo, Lielle já trabalhava como bombeira civil e enfermeira, com projetos de prevenção e primeiros socorros. No litoral, decidiu abrir também um empreendimento na área pet. “Eu precisava de outra renda. Abri o banho e tosa e fui colocando no Instagram. A vizinha da frente veio conhecer, depois a do lado. Foi de boca em boca e deu muito certo”, destaca.
Ela diz ter sido bem acolhida pela comunidade. “Morar no litoral é algo diferente. Não sei se é o ar, ou o mar, mas me surpreendeu”, afirma.
Para os filhos, ela destaca a rotina escolar como superior ao que eles tinham à disposição na Região Metropolitana. “Aqui valorizam muito o esporte e a música na educação. Tem banda na escola e treino no contraturno, além de transporte escolar gratuito”, justifica.
Lielle aponta também a segurança como fator determinante. “Meus filhos tinham bicicleta em Canoas e não conseguiam usar. Aqui eles saem o tempo todo com elas. Não que não existam problemas, mas não são na mesma proporção”, relata.
Quando recebeu proposta para voltar a morar em Canoas, ouviu a resposta dos filhos. “Só se for necessidade. A gente não quer voltar”, completa Lielle.
Crescimento sem números
O aumento da população no Litoral Norte é reconhecido pelas administrações municipais, mas ainda sem dados consolidados. Presidente da Associação dos Municípios do Litoral Norte (Amlinorte) e prefeito de Morrinhos do Sul, Marcos Venicios Evaldt afirma que o crescimento é perceptível em todos os municípios, apesar das diferenças regionais. “O litoral é muito heterogêneo e complexo. Tavares tem uma realidade diferente de Tramandaí, Capão da Canoa e Torres. Morrinhos do Sul que não tem praia, tem outra. Mas o aumento populacional é realidade para todos”, destaca.
Segundo ele, o tema foi recorrente nas primeiras reuniões que participou com prefeitos da região, após assumir a presidência da entidade. “O aumento da população se vê principalmente no verão, mas também no inverno. Este foi um dos assuntos mais tocados”, garante.
Evaldt afirma que os dados oficiais não refletem a dimensão atual. “Os números do IBGE não são condizentes com a realidade. Se a estimativa aponta aumento de 50% nas últimas décadas, quando se olha o número de cartões SUS e outros serviços, o número é maior”, relata.
Ele cita o município de Itati como exemplo. “Tem três mil habitantes e quase cinco mil cartões SUS. É um indicativo de quem está no litoral o ano todo e deveria ser considerado”, justifica.
Segundo Evaldt, a discrepância nos números impacta diretamente o repasse de recursos, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que é considerado fundamental para diversas cidades da região. “Muitos municípios estão gastando excedente em educação e saúde”, explica.
Há casos, segundo o presidente da Amlinorte, de unidades de saúde que atendem até 200 pessoas por dia em plantões 24 horas, porém os repasses não acompanham a realidade. Outra preocupação é o custo com lixo e transporte de resíduos até Minas do Leão, que gera despesa elevada para as prefeituras. A questão do saneamento também tem sido debatida.
Evaldt informa que será solicitado encontro com o Tribunal de Contas do Estado para discutir critérios e impactos financeiros. “Como os municípios do litoral vão se preparar se não têm números reais da população”, questiona.
Entre as cidades com maior número de imóveis adquiridos por meio da Compra Assistida, ele cita Cidreira, Balneário Pinhal, Osório, Imbé e Tramandaí. “Não temos números fechados, mas é um aumento perceptível”, conclui.