A Lagoa do Peixoto, em Osório, é um dos pontos mais populares de água doce do Litoral Norte. De fácil acesso, churrasqueiras e relativamente poucas ondas, o local é um convite à contemplação e navegação com caiaques. No entanto, quem chega ali há muito tempo se depara com uma placa alertando sobre águas impróprias para banho, segundo o boletim de Balneabilidade da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), aviso este presente há seis semanas seguidas, um recorde preocupante não somente para este balneário, como também em toda a região.
Mas a poluição não intimida adultos e até mesmo crianças, que, em não raros casos, vêm de longe e acaba ingressando na água de cor escura e múltiplos perigos invisíveis. O funcionário público Paulo Daniel, morador do bairro Partenon, em Porto Alegre, esteve no local com a família no último domingo e disse que o espaço é de muita calmaria, o que naturalmente acaba atraindo pessoas.
Em um passado não muito distante, o local cobrava para a entrada, porém agora o acesso é gratuito. “Quando você sai de férias, precisa ter uma lugar para descansar a mente, e nada melhor do que um local assim, longe do agito do litoral mesmo. Agora, entrar na água é mais difícil, na verdade precisa ter bastante cuidado”, ressaltou ele.
“E temos que observar bem o motivo de estar impróprio aqui”, acrescentou. Guarda-vidas estão no local, mas na realidade, a orientação geral deles para com os banhistas é mais sobre atitudes que podem levar a possíveis afogamentos ou acidentes, e não necessariamente uma proibição ou restrição de adentrar à água.
De acordo com a Fepam, a Lagoa do Peixoto apresentou alto índice de cianobactérias, com uma medição de 210.354 células/ml no boletim mais recente, divulgado no último dia 13; quatro vezes mais do que o limite seguro de 50 mil células/ml, o que indica, ainda segundo o órgão ambiental, condições de eutrofização, ou excesso de nutrientes.
Observa ainda a Fepam que os gêneros de microorganismos Aphanocapsa sp. e Raphidiopsis sp., localizados nesta lagoa, “são potenciais produtores de toxinas, e a exposição a essa água pode levar a intoxicações agudas ou crônicas”. As causas do problema não são claras, mas, enquanto o local segue aberto para banho, mesmo impróprio, a Prefeitura de Osório e a Corsan divergem nas explicações.
Prefeito: “Em duas semanas já poderá estar própria”
“Acredito que em duas semanas a lagoa poderá estar própria para banho novamente”, disse o prefeito Romildo Bolzan Júnior. De acordo com a prefeitura, há uma reunião marcada para esta quarta-feira com a Corsan para a empresa apresentar um cronograma para instalação de um separador absoluto, além de outros temas do contrato vigente.
Este equipamento já está no cronograma de obras da Corsan com a Prefeitura, sendo ele, na realidade, uma obra para canalizar o esgoto cloacal para que seja levado para a estação de bombeamento, e de lá, para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Osório. No último dia 9, outra reunião já havia solicitado urgência nesta obra. Segundo a Prefeitura, já há cobranças do Ministério Público do RS (MPRS) sobre o assunto.
Algumas galerias pluviais que desembocam na lagoa do Marcelino, conhecida por sua profusão de tartarugas, são mistas, ou seja, recebem água da chuva e esgoto cloacal bruto. “A suspeita é que talvez este material possa estar influenciando na proliferação de cianobactérias que estão comprometendo a balneabilidade do Peixoto, mas não há confirmação. A Prefeitura pressiona para que esta obra saia do papel o quanto antes”, afirmou a Administração osoriense.
O que diz a Corsan
Uma das reuniões mais recentes foi por volta de outubro ou novembro de 2025, antes do começo da divulgação da balneabilidade na atual temporada. Na ocasião, foi definido que algumas vias receberiam o separador, dentre elas as ruas Firmiano Osório, Barão do Triunfo, Voluntários da Pátria, Dr. Nelson Silveira de Souza e Presidente Costa e Silva, além da avenida Ildefondo Simões Lopes.
O cronograma deve ser também decidido na reunião desta quarta. Já a Corsan disse em nota que acompanha as condições de balneabilidade da região, mas “não é possível, neste momento, estabelecer relação entre a proliferação de cianobactérias e eventuais contribuições do sistema misto de drenagem e esgotamento sanitário, situação que depende de análises técnicas específicas”.
Disse ainda que “o esgoto coletado pela Companhia é encaminhado para tratamento na ETE Osório, em conformidade com as licenças ambientais vigentes”, e confirmou que mantém tratativas com o poder público para a evolução de ações de esgotamento sanitário no município, “incluindo a apresentação de cronograma de intervenções dentro dos prazos contratuais”, para cumprimento das metas do Marco Legal do Saneamento.