Quem passa pela barra do rio Tramandaí, entre Tramandaí e Imbé, ainda pode presenciar uma cena que já atravessa várias gerações. Pescadores ficam perfilados na beira do rio, com tarrafas nas mãos, atentos ao menor sinal vindo da água. Do outro lado da parceria está o boto-de-Lahille, que indica o momento exato de lançar a rede.
A pesca cooperativa, registrada há várias décadas na região, segue ativa e continua sendo sustento para centenas de famílias. A dinâmica é simples, mas exige sintonia. “O boto vem e, quando enxerga a tainha, levanta de bico para nós. É ali que a gente tarrafeia, na frente dele. Ele nos mostra onde está o peixe”, explica o pescador Rodrigo Duarte, 48 anos.
Duarte trabalha profissionalmente com a pesca há dois anos, mas acompanha a prática desde antes. Segundo ele, beneficia as duas partes. “No momento que a gente pega a tainha, algumas escapam da tarrafa e ele come junto. Ele pesca junto conosco”, resume.
A presença da tainha determina o ritmo da atividade. A temporada mais forte ocorre entre março e maio, quando o peixe aparece com mais intensidade na barra. Entretanto, mesmo fora do pico, a cooperação pode ser vista praticamente todos os dias, atraindo moradores e turistas que se reúnem na ponte e às margens do rio para observar o espetáculo.
Apesar da tradição da pesca colaborativa, pescadores relatam diminuição no volume de peixes nos últimos anos. “Tem diminuído bastante. A cada ano, está enfraquecendo mais a pesca. Nosso temor é de que, nos próximos anos, essa situação piore”, afirma Duarte.
Segundo ele, a redução preocupa não apenas pelo impacto direto na renda, mas também pelo reflexo sobre os próprios botos, que dependem dos cardumes para se alimentar.
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Entre os pescadores, outro ponto de apreensão é a entrada em operação do emissário que fará o lançamento de efluente tratado no rio Tramandaí, a partir do sistema implantado em Xangri-Lá e Capão da Canoa.
Duarte teme que o despejo de esgoto tratado possa afetar o equilíbrio ambiental da barra. “O nosso medo é que isso termine com o peixe. E não é só o peixe, pode prejudicar os botos também”, afirma. Ele questiona os possíveis impactos a longo prazo na atividade que sustenta famílias e atrai visitantes. “O pessoal vem aqui para ver o boto, para ver a pesca e para comer um peixe fresco. É uma tradição nossa", acrescenta.
Em entrevista recente ao Correio do Povo, o diretor executivo da Diretoria Leste da Corsan Aegea, Vitor Hugo Vieira Barros Gabriel, afirmou que todo o esgoto coletado será 100% tratado antes de ser devolvido ao meio ambiente.
Segundo ele, o lançamento seguirá parâmetros técnicos mais restritivos do que os exigidos pela legislação estadual e federal, com base em estudos ambientais realizados por mais de um ano e monitoramento em dezenas de pontos do rio. “Se eu pegar um copo de água mineral e colocar ao lado de um copo com o efluente, afirmo que não é possível ver nenhuma diferença”, disse na ocasião.
O diretor sustentou que a lógica do sistema é justamente interromper o despejo de esgoto bruto nos corpos hídricos, melhorando a qualidade da água ao longo do tempo. “Quando você pega todo esse esgoto bruto e trata corretamente, você deixa de jogar matéria orgânica no sistema. Naturalmente, a qualidade da água melhora”, afirmou Gabriel.