Verão

Programas habitacionais impulsionaram migração para o Litoral Norte após as enchentes

22 meses após as enchentes, migração também pressiona serviços no Litoral Norte

Crescimento das cidades tem sido percepido pelos municípios
Crescimento das cidades tem sido percepido pelos municípios Foto : Fabiano do Amaral

Há exatos 22 meses, em 3 de maio de 2024, a água começava a avançar sobre bairros inteiros de Porto Alegre e cidades da Região Metropolitana, ao mesmo tempo em que devastava regiões como o Vale do Taquari. O que era apreensão virou desalojamento em massa e centenas de milhares de pessoas deixaram para trás suas casas, móveis e rotinas. Após as águas baixarem, parte delas voltou, enquanto outra parte mudou em definitivo.

Desde então, o mapa demográfico do Rio Grande do Sul também mudou e deixou Litoral Norte no centro dessa transformação. Se no primeiro momento a praia foi refúgio provisório, com casas de veraneio e imóveis de temporada recebendo amigos e parentes, meses depois o movimento ganhou outro perfil. A política de Compra Assistida, criada para atender atingidos pelas enchentes, impulsionou a aquisição de imóveis na faixa de até R$ 200 mil e aqueceu de forma significativa o mercado imobiliário da região.

“Quando estourou a enchente em Porto Alegre, veio todo mundo para a praia. Parecia veraneio. Isso durou de 30 a 45 dias. Depois, com a água baixando, o pessoal foi voltando aos poucos”, relembra o delegado regional do Sindicato da Habitação do RS (Secovi/RS-Agademi), Marcelo Callegaro.

Segundo ele, a procura estruturada por imóveis veio na sequência, já dentro de um movimento que há duas décadas aponta o Litoral Norte como a região que mais cresce em população no Estado, mas que se intensificou nos últimos seis anos. “A migração para o Litoral Norte é a maior do Rio Grande do Sul nos últimos 20 anos. As pessoas vêm por paz, tranquilidade, natureza. Depois da pandemia isso se intensificou, mas a Compra Assistida deu outro impulso”, afirma.

Vendas concentradas e escassez

Em municípios como Cidreira, o impacto foi imediato. O corretor Maurício Gonçalves Menegazzi afirma que praticamente todos os imóveis que custavam menos de R$ 200 mil foram comercializados. “Foi um impulso para o setor imobiliário. Se vendeu quase tudo e, hoje, há escassez de imóveis até esse valor”, diz.

Segundo ele, o movimento começou a ganhar corpo no fim de 2024, quando os beneficiários passaram a buscar imóveis aptos ao subsídio. No início, houve entraves operacionais, com demora na avaliação e no pagamento por parte da Caixa. “Demorava três, quatro meses para sair pagamento. Depois foi ajustando. Agora, em um mês e meio, no máximo, o governo já está pagando”, relata.

Menegazzi também aponta distorções nas avaliações iniciais. “Os engenheiros vinham de Porto Alegre e não conheciam a realidade de cada bairro. Aqui o valor muda de uma zona para outra. No começo, a gente perdeu negócios por avaliação baixa. Depois isso foi se adequando”, explica.

O efeito fez com que imóveis que estavam há meses à venda fossem rapidamente absorvidos e, em alguns casos, houve valorização acima do preço inicialmente pedido. “Teve gente que baixou para vender rápido e teve quem conseguiu vender acima do que valia”, afirma.

Novo perfil e mercado aquecido

Entre Tramandaí e Imbé, a corretora Cristiane Faversani estima que mais de 500 imóveis tenham sido comercializados dentro desse contexto - cerca de 100 intermediados por ela. “A demanda foi muito alta, principalmente de famílias de Canoas e Porto Alegre. Muita gente já tinha o desejo de morar aqui e aproveitou o programa”, diz.

Além das famílias atingidas pelas enchentes, outro público passou a reforçar a procura. Segundo Cristiane, impulsionado pelos trabalhadores em sistema home office, há aumento na venda de apartamentos acima de R$ 500 mil, com lançamentos de padrão mais elevado, especialmente em Tramandaí. “Está mudando o perfil. Temos prédios novos, de alto padrão e bastante procura também”, observa.

Para Callegaro, porém, o volume ligado à enchente não superou o registrado na pandemia. Ainda assim, foi suficiente para alterar a dinâmica local. “Não foi nada perto da pandemia, mas foi significativo. As prefeituras e os registros de imóveis podem dimensionar melhor esse crescimento”, afirma.

Educação também foi impactada

Em Torres, a expansão da rede privada de ensino é um dos indicativos desse novo momento. O Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe/RS) confirma aumento consistente na procura por vagas no Litoral Norte desde o ano passado e há escolas que abriram quatro ou cinco novas turmas para atender à demanda.

Em muitos municípios, as vagas já estão praticamente preenchidas. A entidade também aponta a instalação de novas instituições, como a Escola Impulso, inaugurada neste ano no município.

Esse cenário é observado tanto no ensino privado quanto na rede pública, indicando um aumento da população residente na região. “O retorno que temos das escolas é de um aumento consistente na procura por vagas no Litoral Norte, especialmente desde o ano passado. Em muitos casos, as instituições precisaram ampliar turmas para atender à demanda”, afirma o presidente do Sinepe/RS, Oswaldo Dalpiaz.

Pressão sobre as contas públicas

Se para o mercado imobiliário o movimento significou aquecimento, para os cofres públicos o cenário exige cautela. Prefeito de Cidreira, Gilberto da Costa Silva, o Beto do Litoral, afirma que o município recebeu número expressivo de beneficiários da Compra Assistida, especialmente na faixa de até R$ 200 mil.

Segundo ele, cerca de 70% da arrecadação municipal depende de repasses. “A gente recebe por 17 mil pessoas. Na saúde e na educação, os números de usuários não batem com essa estimativa. A matemática não fecha”, afirma.

A prefeitura pretende realizar um novo censo municipal para dimensionar a população real e buscar adequação nos repasses. “A gente está adequando as contas e acabamos tirando dinheiro do recurso livre, que já não é muito, para poder cobrir os investimentos necessários em saúde e educação. Por isso vamos reivindicar repasses mais adequados aos custos que temos”, completa.

Outro ponto de atenção é a cláusula de inalienabilidade dos imóveis adquiridos via Compra Assistida, que impossibilita a venda por cinco anos. Para o mercado, isso pode reduzir a oferta futura. “Normalmente, o pessoal fica de um ou dois anos e vende. Agora esses imóveis vão ficar travados. Isso pode dar uma trancada no comércio mais adiante”, conclui o corretor Menegazzi.

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