Quem estiver passando pela barra do rio Tramandaí e ver que pescadores estão tentando largar tarrafas na água é convidado a admirar uma tradição que perdura por décadas e que mostra a relação de cooperação entre o ser humano e o mundo animal. A pesca entre botos-de-Lahille e pescadores é algo quase que diário na barra entre Tramandaí e Imbé.
Além de benéfico tanto para o animal como para o humano, a pesca cooperativa é também um espetáculo a ser admirado. Na tarde desta quinta-feira, a atividade durou por mais de uma hora e envolveu, além do boto, cerca de 10 pescadores, ambos em busca de um cardume de tainha. Cada aparição do mamífero marinho criava um sinal de alerta para os profissionais. E quando o animal colocava a cabeça para fora da água, as redes voavam em direção ao rio.
Um destes pescadores, Valdemir Reis, conhecido na região como Preto Reis, conta que grande parte do seu sustento vem da cooperação com os botos que se alimentam na barra. “Normalmente, quem traz o nosso sustento é o boto. Faz 35 anos que eu pesco aqui na barra do rio Tramandaí, então falo com propriedade que, se não tem boto na água, fica mais difícil para nós pescadores”, contou.
Reis explica ainda como ocorre a interação com o animal. “Existem três sinais. O primeiro é o conhecido sinal de bico, quando ele levanta a cabeça e aponta para onde o peixe está, que é quando a gente lança a tarrafa. Outro é quando ele vira a barriga de lado, quando está cercando. E o terceiro é quando ele dá um pulo, que a gente chama de pulão, que significa que ele está perseguindo a tainha”, completou o pescador.
De acordo com Paulo Henrique Ott, pesquisador do Grupo de Estudo de Mamíferos Aquáticos do RS (Gemars) e professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), esse tipo de interação acontece há décadas na região, sendo o rio Tramandaí um ponto já reconhecido pela prática. Para ele, trata-se de uma questão comportamental, transmitido de geração em geração a partir da observação.
Este aprendizado acontece principalmente durante o período de amamentação, junto com a mãe, que é quando o indivíduo vai perdendo o medo da interação com humanos ao ver sua matriarca pescando junto. Por outro lado, os botos também se beneficiam desta interação com os humanos.
“Quando o pescador joga a tarrafa na água, os peixes tentam fugir e acabam indo para a direção contrária, onde estão os botos. É evidente que existe vantagem para os dois lados. Só que nem todos eles interagem com os pescadores. Cerca de metade dos botos fazem este tipo de pesca cooperativa e outra metade simplesmente tenta pescar sozinha”, finalizou.