As ruas da praia de Atlântida, em Xangri-Lá, carregam a memória de tempos áureos, quando a rua Buriti, a duas quadras do mar, pulsava ao ritmo das festas organizadas pelo conhecido e excêntrico empresário Luiz Carlos da Silva, o Caburé.
Como um contraste dos momentos marcantes vivenciados no local, o movimento na manhã de quinta-feira era discreto. Funcionários dedicavam-se a manter os jardins impecáveis e as casas limpas, enquanto poucos pedestres e carros passavam, em ritmo lento, para admirar as mansões que já foram cenário de festas grandiosas.
Entre eles está Maria Emília Cabeda, confeiteira de 65 anos, que veraneia há quatro décadas na praia de Atlântida. Com o celular em mãos, fazia uma chamada de vídeo pelo WhatsApp, com sua irmã, Maria Regina Teixeira, que mora em João Pessoa, na Paraíba. "Eu quis mostrar para ela como era aqui. Caburé fazia a rua vibrar, com saxofonista, espumante e carros de luxo como Ferrari e Lamborghini. Hoje, embora mais calmo, ainda é um ponto turístico", relembrou.
Um dos pontos mais marcantes no legado de Caburé, segundo moradores e visitantes, era o seu carisma e o modo como suas festas reuniam artistas, magistrados e empresários, sempre regadas a música e muita alegria.
Contudo, como relatou o segurança Antônio Fernandes Pereira, de 58 anos, que trabalha para a família há 13 anos, a intensidade dos eventos já havia diminuído anos antes da morte do empresário. "Seu Caburé ficou oito anos sem fazer festas antes de falecer, passando mais tempo em sua casa em Porto Alegre. Mas, depois da morte dele, os eventos voltaram nos finais de semana com carrinho de pipoca, saxofonista, chocolates e flores sendo distribuídos, como ele fazia. Amigos, familiares e ex-funcionários participam", explicou.
Ainda assim, o cotidiano da região mudou. Segundo o segurança, muitos vizinhos que compraram imóveis nas imediações, para estar próximos a Caburé, venderam as propriedades após sua morte. "Ele mexia com todo mundo, era muito extrovertido e generoso. Seu Caburé agitava essa praia, e hoje, sem ele, tudo ficou mais calmo", comentou Pereira.
As casas da família, que já contaram com até 60 funcionários encarregados de sua manutenção, hoje mantém cerca de dez colaboradores. No entanto, o filho do empresário, que veraneia em uma das três mansões da família na região, tem se esforçado para preservar a memória do pai, organizando eventos, marca registrada de Caburé.
Um ícone que marcou gerações
Luiz Carlos da Silva, conhecido como Caburé, faleceu no dia 19 de dezembro do ano passado, aos 90 anos, de causas naturais, e sua história é considerada um exemplo de superação. Nascido em 1933, em uma família humilde, iniciou sua trajetória vendendo melancias e, em 1963, fundou o Grupo Caburé Seguros, que hoje emprega mais de 23 mil colaboradores e atende 1,5 milhão de clientes.
Caburé também ficou conhecido por sua personalidade carismática e seu papel no desenvolvimento de Xangri-Lá. Suas ações iam além das festas, ele investiu em melhorias na infraestrutura da região, conquistando o respeito e a admiração dos moradores e veranistas.
“Só quem conheceu o Caburé para saber o homem que ele era. Ele sempre me dizia para andar de cabeça erguida, pois quem anda de cabeça baixa tropeça. Chamava todos de ‘meu filho’ e dizia para olhar para o horizonte. Foi uma referência para mim”, finaliza o segurança Pereira.
Caburé